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domingo, 20 de maio de 2012

Fiéis celebram dez anos de canonização de santa Paulina


Cerca de 12 mil pessoas participaram neste domingo (20) das comemorações em Nova Trento.

Cerca de 12 mil pessoas participaram neste domingo (20) das comemorações pelos dez anos de canonização de santa Paulina, em Nova Trento (85 km de Florianópolis). Devotos de todo país lotaram o santuário nas quatro missas realizadas. Segundo a organização do santuário, cada missa teve a presença de cerca de 3.000 pessoas.
A procissão que estava programada para passar pelos principais locais onde a santa viveu e atuou teve que ser reduzida por causa da forte chuva que atingiu a cidade.
Mas o tempo não desanimou centenas de peregrinos. Do município de Brusque saíram 300 pessoas por volta das 5h da manhã. Andaram 28 quilômetros até chegar ao santuário. "Com frio, com chuva, não importa. A vontade de vir e a fé são bem maiores", afirmou a balconista Arlete Pezzini. Essa é a décima vez que ela participa da peregrinação, realizada há 16 anos.
Além de catarinenses, a maior parte dos devotos é do Paraná e de São Paulo, segundo pesquisa da Santur (Santa Catarina Turismo), entidade do governo do Estado de Santa Catarina.
As aposentadas Lilia Oliveira de Jesus e Ligia Machado vieram de Jacupiranga, no Vale do Ribeira em São Paulo, em uma excursão com mais 43 mulheres. "Sempre acompanho as missas pela televisão. Desta vez, quis conhecer esse lugar tão especial", contou Ligia.
A pesquisa também indica que a maioria dos turistas é de classe média e visita a cidade com a família. A empregada doméstica Roseli Soares se emocionou quando a mãe dela, Regina dos Santos, terminou de subir a escadaria que leva ao santuário. A aposentada tem osteoporose e subiu os 113 degraus com muita dificuldade. "É uma penitência. Viemos até aqui pedir para a santa Paulina curar minha mãe", afirmou Roseli.
As demonstrações de fé emocionaram moradores da cidade, entre eles familiares de santa Paulina. O único sobrinho vivo, Alexandre Wisentainer, 95, levou filhos e netos ao santuário. Ele diz que se lembra de vários momentos com a tia. "Ela ajudou muita gente. É um orgulho enorme", diz Wisentainer.
O orgulho também é compartilhado por moradores de Nova Trento, como a universitária Aline Batistti que todo fim de semana trabalha com a mãe em uma banca de produtos coloniais bem em frente ao santuário. "É muito bom ver a cidade assim, cheia."
Comércio e fé

A Prefeitura de Nova Trento não tem pesquisas que indiquem quanto os turistas movimentam na cidade, mas informou que o setor cresce a cada ano.
O movimento de fiéis atraiu Valdir Gums. No dia da canonização, há dez anos, ele começou a vender lembrancinhas de santa Paulina e não parou mais. Todo fim de semana, ele, a mulher e o filho viajam 60 quilômetros de Balneário Camboriú para Nova Trento. "Os turistas gostam mais das camisetas e das imagens da santa", diz Gums. O comércio é responsável por 70% da renda da família.
Muitos clientes ficam até confusos com tanta opção de lembranças. A autônoma Inês da Silva, de Curitiba (PR), optou por chaveiros em formato de coração e com o rosto de santa Paulina. "Estou levando 12, para os filhos e amigos lembrarem sempre dela."
História
Santa Paulina nasceu em 1865 na Itália. Aos nove anos, migrou com a família para o Brasil. Passaram a viver em Nova Trento, onde iniciou a vida religiosa. O nome de batismo, Amábile Lúcia Visintainer, foi trocado pelo de irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus.
Em 1890, a madre foi uma das fundadoras da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, que está presente em dez países, principalmente da América Latina e África.
"Santa Paulina dedicou a vida a cuidar de doentes e crianças e deu belos exemplos de humildade", conta a diretora do santuário, irmã Maria Adelina da Cunha.
Aos 38 anos, madre Paulina se mudou para São Paulo, onde passou a cuidar principalmente de filhos de ex-escravos. Foi também em São Paulo que ela passou por graves problemas de saúde. Era diabética e teve um braço amputado pela doença. Morreu aos 77 anos.
Mais de duas décadas depois de sua morte ocorreu o primeiro milagre atribuído a madre Paulina: a melhora de Eluíza Rosa de Souza, de Imbituba (SC), que em 1966 sofreu uma hemorragia em decorrência da morte intrauterina do feto.

Escritor paranaense resgata relatos do Titanic


Reprodução / Livro de Cleiton Basso busca o lado humano da tragédiaLivro de Cleiton Basso busca o lado humano da tragédia
HISTÓRIA

Poucas tragédias marcaram tanto o mundo contemporâneo como o naufrágio do RMS Titanic, que se chocou com um iceberg e foi ao fundo do Oceano Atlântico na noite de 14 de abril de 1912, durante sua viagem inaugural, vitimando mais de 1,5 mil pessoas a bordo. A efeméride não esconde isso: no centenário do acidente, mais uma vez o assunto voltou à tona e a busca por histórias e fatos sobre o navio levou o escritor e palestrante paranaense Cleiton Basso a realizar a pesquisa que culminou no livro No Coração do Oceano, publicado pela editora Sinergia, selo do grupo Ediouro. Reunindo documentos e depoimentos recolhidos em publicações sobre o assunto e também na internet, Basso é o primeiro autor brasileiro a escrever um livro sobre a história do famoso transatlântico, e disponibilizou sua obra também em formato audiolivro.

Reprodução
Reprodução / No Coração do Oceano traz depoimentos dos sobreviventesAmpliar imagem
No Coração do Oceano traz depoimentos dos sobreviventes
Serviço
No Coração do Oceano
Cleiton Basso. Sinergia. 166 págs., R$ 24,90. História.
Basso conta que o interesse pela história veio da associação de um acontecimento familiar com a morte em alto-mar. “Meu trisavô saiu da Itália para o Brasil num barco com seus quatro filhos pequenos, trinta anos antes da tragédia do Titanic. Durante a viagem, ficou doente e acabou falecendo, e seus filhos, já órfãos de mãe, viram então o pai ser sepultado no fundo do oceano. A partir desse fato, tive a curiosidade de saber o que sentiram as pessoas que estavam no Titanic. O espectro de emoções que envolveu o episódio era muito rico, e poucos livros haviam falado do aspecto humano da história, mais explorado pelos filmes ficcionais”, explica o escritor, que mora na cidade de Dois Vizinhos, a 420 quilômetros de Curitiba.
De lá, Basso quase não precisou sair para realizar sua pesquisa. “Na época, o senado americano e o governo inglês realizaram um inquérito para investigar as causas do acidente. Lá, foram coletados os depoimentos dos sobreviventes, que foram publicados no site do projeto Titanic Inquiry, que transcreve os inquéritos realizados na época para acervo digital. Foi daí que eu coletei as histórias que estão no livro”. Fora isso, conta ele, buscou em livros, sobretudo na obra Wreck and Sinking of the Titanic, de Marshall Everett, outras histórias de sobreviventes e outros detalhes sobre o episódio, brevemente descrito na apresentação do livro, complementado ainda com fotos e ilustrações do navio e do desastre.
Narrado com muitas aspas dos depoimentos, No Coração do Oceano contempla a história dos que viram o navio de 256 metros afundar no Atlântico. “A maioria dos sobreviventes eram mulheres, salvas pela diretriz que priorizava mulheres e crianças. Uma delas deu um depoimento inesquecível: prestes a embarcar no bote salva-vidas, recebeu das mãos de um homem desconhecido um bebê. O homem disse que já era um adulto, mas implorava para que ela tomasse conta de seu filho pequeno. Ela ficou então com a criança e o homem afundou junto com o navio”, lembra Basso.
Para o autor, o episódio do Titanic ainda vai ficar por muitos anos no imaginário da humanidade. “Os sobreviventes que deram depoimentos diziam que não conseguiam conceber que um navio daquele tamanho estivesse mesmo afundando, e mesmo hoje a ideia parece inacreditável para nós. É, sobretudo, uma lição de como o excesso de confiança, tanto dos projetistas quanto da tripulação, pôs tudo a perder”.
CULTURA E LAZER | 4:27

Livro retrata o lado humano do Titanic

Escritor paranaense resgata depoimentos em livro que retrata aspectos emocionais da tragédia do transatlântico que completa 100 anos.

Gazeta “estreia” Lei de Acesso em 9 órgãos públicos


Vida Pública

Domingo, 20/05/2012
 /
TRANSPARÊNCIA

Repórteres do jornal foram os primeiros a pedir pessoalmente dados em repartições de Brasília e Curitiba. Padrão de atendimento variou bastante.

Desde a última quarta-feira, é lei: todo órgão estatal precisa oferecer um espaço físico e funcionários para que qualquer pessoa receba atendimento e orientação para ter garantido o direito de acesso a informações públicas. A diferença entre o que está no papel e a prática, no entanto, ainda é grande. Principalmente na comparação entre as esferas federal, estadual e municipal.
Em Brasília e Curitiba, repórteres da Gazeta do Povo foram os primeiros cidadãos do país a pedir dados pessoalmente com base na Lei de Acesso à Informação em nove instituições públicas – Ministério da Educação, Supremo Tribunal Federal (STF), Ministério Público Estadual, Tribunal de Contas do Estado, Assembleia Legislativa, prefeitura de Curitiba e Casa Civil do governo do Paraná. Também foram feitas solicitações no Ministério da Saúde, Câmara dos Deputados e Senado.
Divulgação de salários ainda é incerta
Um dos questionamentos feitos pela reportagem da Gazeta do Povo entra na polêmica sobre a divulgação dos salários de funcionários públicos. No dia em que a nova lei entrou em vigor, um decreto detalhou o funcionamento das regras no Poder Executivo federal e determinou a publicação das remunerações.
Ministério 1
Educação oferece 4 computadores para consulta
O Ministério da Educação criou um Serviço de Informação ao Cidadão no andar térreo do edifício principal, em Brasília. Na entrada do espaço, às 12h10, dois funcionários se apresentaram e logo anunciaram que aquele era o primeiro pedido de dados realizado pessoalmente com base na lei. Eles explicaram que a consulta poderia ser feita em um dos quatro computadores de acesso livre instalados na sala. Um dos funcionários mostrou inicialmente todos os dados disponíveis sobre funcionários comissionados no site do ministério. Como não foi possível chegar diretamente ao universo das informações solicitadas, ele explicou que seria necessário fazer um requerimento em papel, em um modelo básico oferecido pelo ministério, ou por meio eletrônico após um cadastro no Sistema Eletrônico do Serviço de Informações ao Cidadão (e-SIC), mantido pela Controladoria-Geral da União (CGU). Após seguir a segunda opção, o funcionário ajudou no preenchimento do cadastro eletrônico. Ao todo, o atendimento durou 17 minutos.
Ministério 2
Vidros separam público dos atendentes da pasta de Saúde
O Ministério da Saúde também criou um SIC no andar térreo do seu edifício sede na Esplanada. Três funcionárias faziam o atendimento ao público às 14h15 de quarta-feira. Não foi necessário nem se identificar na portaria para ter acesso aos guichês, que têm vidros que separam as atendentes dos interessados em solicitar informações. Inicialmente, uma das funcionárias disse que todos os dados solicitados estavam no site do ministério – mas não ofereceu um computador para a pesquisa. Depois, solicitou o acesso à sala, mas pediu que fizesse um novo cadastro no e-SIC para formalizar o pedido. O atendimento demorou 15 minutos.
Questões
Saiba o que foi perguntado aos órgãos públicos procurados pela reportagem da Gazeta do Povo:
• Número de funcionários comissionados (não concursados) que estão em atividade no órgão;
• A distribuição quantitativa desses funcionários, por faixa salarial e função desempenhada;
• A relação nominal dos funcionários comissionados em atividade, suas funções e seus respectivos salários;
• O gasto total do órgão com os funcionários comissionados no mês de abril de 2012.
Sem protocolo
No Senado, impressora quebrada impediu impressão do documento
Ao contrário do que aconteceu na Câmara, as recepcionistas do Senado logo informaram a localização correta do quiosque onde fica o SIC da Casa. Lá, três funcionários faziam o atendimento em um espaço que antes era utilizado apenas como guichê de informações básicas de localização. Em 15 minutos, seis pessoas que passavam pelo local só utilizaram o espaço para perguntar como chegar em gabinetes de senadores ou deputados.
O atendente que fez a recepção disse que não tinha como protocolar qualquer pedido porque a impressora estava com problemas. Ele não se preocupou em saber sobre o teor da solicitação, nem em citar que tipo de dados já estavam disponíveis no site do Senado. Ao final, ele assinou uma cópia do requerimento que foi levado pronto, em papel, sem qualquer carimbo ou número de protocolo. “Não tem como acompanhar, mas pode esperar pela resposta dentro do prazo”, disse o atendente.
Todos os órgãos receberam requerimentos sobre contratações e gastos com funcionários comissionados (admitidos sem concurso público). Apenas o Supremo respondeu imediatamente os quatro questionamentos (veja mais informações no box abaixo).
As experiências foram distintas. Na capital federal, quatro das cinco estruturas visitadas criaram os Serviços de Informação ao Cidadão (SICs) mencionados na lei. A exceção foi o Supremo, que adaptou a Central de Atendimento já existente desde 2008. Todos os espaços visitados, contudo, dispunham de funcionários treinados com base na nova legislação e que tentaram resolver as dúvidas de imediato.
Desconhecimento
Em Curitiba, nenhum dos sete órgãos percorridos recebeu as solicitações em um SIC. Todos orientaram que os requerimentos precisavam ser registrados em um protocolo comum. Somente na Câmara de Vereadores os funcionários demonstraram conhecimento da lei. Em nenhum caso, porém, houve a tentativa de prestar a informação imediatamente.
Tanto no Distrito Federal quanto no Paraná, os requerimentos foram feitos pelos repórteres como cidadãos comuns, sem ajuda ou filtros de assessorias de imprensa. Pela lei, cada órgão tem 20 dias de prazo (até 5 de junho), prorrogáveis por mais 10, para apresentar as respostas.
Sem espera
Supremo foi o único órgão a dar a resposta imediatamente
O STF não criou um SIC específico para atendimento presencial e recebe os pedidos de informação nos dez guichês da Central de Atendimento que está em funcionamento desde antes da entrada em vigor da Lei de Acesso. O espaço também serve para a prestação de informações jurisdicionais, solicitadas em especial por advogados, mas não tinha filas na quarta-feira à tarde. O órgão foi, entre os visitados em Brasília, o que mais se empenhou em responder ao pedido de imediato.
O funcionário que fez o atendimento logo avisou que aquela seria a primeira experiência após a vigência da lei e comunicou o fato aos chefes. Ele se preocupou o tempo inteiro em mostrar que parte dos dados já estavam disponíveis no site e explicou como fazer o cruzamento de informações para chegar às respostas. Ao todo, o atendimento demorou 1 hora e 10 minutos.
“O quê?”
Recepcionistas da Câmara dos Deputados não sabiam de nada
Ao entrar pelo Anexo 1 da Câmara dos Deputados, nenhuma das três recepcionistas sabia o que era nem onde ficava o recém-inaugurado SIC. Depois de alguns telefonemas, uma delas descobriu que o espaço ficava no Anexo 2. O serviço, no entanto, funciona mais como um guichê de informações e repassa os cidadãos para o atendimento de outros setores.
Questões administrativas da Casa, como dados sobre funcionários comissionados, ficam por conta do Centro de Documentação e Informação. No local, uma atendente tentou buscar as informações de imediato e mostrou tudo o que estava disponível no site. Foi possível chegar a pelo menos uma das respostas, sobre o número de funcionários comissionadas.
Depois, ela registrou três pedidos de informação diferentes que faltavam pelo serviço do “Fale Conosco” da Câmara dos Deputados. Todos geraram protocolos para acompanhamento. Da entrada na Câmara até a finalização do atendimento, o tempo gasto foi de 40 minutos.
Dê sua opinião
Como você avalia os serviços prestados pelos órgãos consultados pela reportagem?



Delegacias desativadas ainda consomem recursos


 Albari Rosa/ Gazeta do Povo / Fechada há 10 anos, esta casa de madeira é a delegacia de Guaraqueçaba. Ainda assim, o fundo rotativo da Polícia Civil destinou R$ 153 mil em 8 anos para manter a unidade na cidadeFechada há 10 anos, esta casa de madeira é a delegacia de Guaraqueçaba. Ainda assim, o fundo rotativo da Polícia Civil destinou R$ 153 mil em 8 anos para manter a unidade na cidade
SEGURANÇA PÚBLICA

Polícia Civil gasta por ano R$ 2,8 milhões em cidades onde não há um único policial. Muitas unidades estão abandonadas há anos.

Há 10 anos, apenas insetos e animais peçonhentos frequentam a casa de madeira tomada pelo matagal entre as ruas Getúlio Vargas e João Vidal, em Guaraqueçaba, no Litoral do Paraná. As janelas sem vidro inteiro, as tábuas caiadas, o mato crescido, tudo confere ao lugar um aspecto mal assombrado. Mas o que assombra não é a visão da estrutura prestes a desabar e sim o sumiço do dinheiro direcionado à manutenção dessa repartição pública. A casinha de aparência macabra deixou de ser uma delegacia há uma década, mas ainda assim consumiu R$ 153 mil do fundo rotativo da Polícia Civil nos últimos oito anos.
Albari Rosa/ Gazeta do Povo
 Albari Rosa/ Gazeta do Povo / Delegacia de Cruzeiro do Sul: desativada, mas com dinheiroAmpliar imagem
Delegacia de Cruzeiro do Sul: desativada, mas com dinheiro
Manutenção
Fundo foi criado há 20 anos para dar mais autonomia aos delegados
O fundo rotativo foi criado pela Lei Estadual nº 10.050, de 16 de julho de 1992, para dar alguma autonomia às delegacias distantes da sede da Polícia Civil, em Curitiba. Destina recursos para manutenção das unidades do interior, com aquisição de alimentos para os presos, combustíveis, lubrificantes e outros materiais de consumo, manutenção das viaturas e pequenos serviços ou reparos. É regido ainda por dois decretos estaduais e uma resolução da Secretaria da Segurança Pública – todos proíbem gastos com pessoal e material permanente.
O controle interno dos recursos do fundo é feito pelo Grupo Auxiliar Financeiro (GAF) da Polícia Civil e o controle externo, pelo Tribunal de Contas do Estado. O gestor do fundo (delegado subdivisional, lotado em uma cidade-polo e responsável pelas delegacias próximas) deve fazer uma análise mensal de consumo de combustível por viatura para evitar distorções e consumo excessivo. Também deve elaborar relatório semestral das atividades feitas com os recursos do fundo. Ao analisar a prestação de contas, o GAF pode requisitar diligências para esclarecer dúvidas ou sanar falhas.
Em caso de irregularidade, o gestor pode ser afastado. O descumprimento do disposto no decreto e em suas normas disciplinadoras será considerado transgressão funcional, sujeitando os responsáveis a sanções administrativas, civis e penais. Cabe ao Conselho da Polícia Civil propor as medidas legais aplicáveis.
Dinheiro sai da conta, mas não chega
O dinheiro do fundo rotativo da Polícia Civil não chega às 16 delegacias visitadas entre março e abril pela reportagem da Gazeta do Povo nas regiões Leste, Oeste, Norte e Noroeste do Paraná. Policiais militares que suprem a ausência de policiais civis nessas unidades não sabem confirmar o valor nem o repasse dos recursos. “Existe [verba de manutenção], mas eu não sei explicar. Eu não sei quanto vem e para onde vai. Se fica na subdivisão [da Polícia Civil] ou na sede de comarca. Nunca tive acesso”, disse um policial militar de Jardim Olinda, no Noroeste.
Participe, denuncie
Você sabe de alguma irregularidade envolvendo recursos públicos da Polícia Civil em sua cidade?
  • Saiba mais
O casebre de Guaraqueçaba é uma das dezenas de delegacias fantasmas do Paraná, onde a única coisa real é o dinheiro a elas destinado. Os recursos saem dos cofres da Polícia Civil, mas não chegam ao destino final. Metade dos 399 municípios do estado não tem um único policial civil. Placas desbotadas e distintivos pintados na parede dão pistas de que se trata de uma delegacia. E só. Em muitas cidades, ela está abandonada há anos ou simplesmente não existe, embora o dinheiro para sua manutenção continue saindo do fundo rotativo. E não é pouco: foram R$ 22,6 milhões nos últimos oito anos, média de R$ 2,8 milhões anuais.
Em Guaraqueçaba, de 8 mil habitantes, poucos sabem que aquele casebre de aspecto sombrio já foi uma delegacia. “Falaram que iriam construir outra delegacia, mas nunca aconteceu. Às vezes a gente precisa da Polícia Civil”, diz uma vizinha da unidade. Quem precisa desses serviços tem de recorrer a Antonina, em uma viagem de 100 quilômetros em estrada de terra ou em duas horas de barco pelo mar. A delegacia ainda funcionou por algum tempo em uma sala emprestada pelo quartel da Polícia Militar, mas foi desativada há três anos. Nem assim o repasse do fundo rotativo foi interrompido.
Investigação
Durante cinco meses, quatro jornalistas da Gazeta do Povo investigaram as contas da Polícia Civil, tiveram acesso a documentos secretos e percorreram 5 mil quilômetros em diversas regiões do Paraná para comprovar o sumiço do dinheiro que deveria ser usado para manter as delegacias abertas. As informações foram catalogadas em um banco de dados disponível para acesso público no site especialwww.gazetadopovo.com.br/policiaforadalei. Nele é possível ver quanto cada delegacia recebeu por ano desde 2004, o número de policiais nas unidades (e a ausência deles em 205 cidades), além da produtividade da polícia medida pela quantidade de inquéritos instaurados.
Guaraqueçaba não é exceção, antes uma regra. Em São Pedro do Ivaí, no Noroeste do estado, prefeitura e comerciantes juntaram dinheiro para ajudar os policiais militares a erguer a nova delegacia, pois a anterior não tinha condições de uso. Ninguém nem sequer sabia da existência dos R$ 164.630 que nos últimos oito anos deveriam ter sido destinados à manutenção da antiga unidade. Em Calógeras, distrito de Arapoti, na região Norte do estado, uma família mora na delegacia desativada. Em Cruzeiro do Sul, cidade de 4,5 mil habitantes na região Noroeste, mais indícios de irregularidades nos repasses do fundo rotativo.
O prédio de tijolo à vista ostenta na entrada uma placa metálica onde se lê Delegacia da Polícia Civil. Apesar de o portão branco enferrujado permanecer aberto, não há motivos para passar por ele. Há seis anos os serviços policiais estão suspensos em Cruzeiro do Sul. O mato com mais de um metro de altura na frente, a ferrugem na grade e alguns vidros estilhaçados retratam o abandono. Nem móveis existem.
Moradores atestam: desde 2006 não há um único policial civil ou militar lotado na cidade. Falta estrutura e pessoal para registrar um simples boletim de ocorrência, ato mais elementar da atividade policial. As rondas são feitas uma ou duas vezes por dia por policiais militares da vizinha Paranacity, sede da comarca. Mesmo fechada há anos, o dinheiro para o funcionamento da delegacia continua saindo das contas da Polícia Civil. Foram R$ 75.635 entre 2004 e 2011, média de R$ 9.454,38 por ano. A despeito dos gastos, nenhum inquérito foi instaurado entre 2008 e 2011 na cidade.
Apesar de não existir na prática e de não dispor de uma viatura sequer, a delegacia de Cruzeiro do Sul recebe por mês uma cota de 400 litros de álcool, conforme relatório do Grupo Auxiliar Financeiro da Polícia Civil, documento reservado obtido pela Gazeta do Povo. Sem polícia, casos de violência típicos de cidade grande dão o clima de insegurança. São casos como o do dono de uma farinheira cuja casa foi invadida e a família ficou refém dos bandidos, do universitário sequestrado ao descer do ônibus, das arruaças nos fins de semana.
VIDA E CIDADANIA | 5:10

Metade do Paraná sem Polícia Civil

A Polícia Civil do Paraná gastou nos últimos oito anos R$ 23 milhões para manter as delegacias das 205 cidades do estado onde não há um policial civil sequer. Em parte delas, o dinheiro não chega. Nessas localidades, PM tem de improvisar.
VIDA E CIDADANIA | 2:15

Dinheiro real para delegacia fantasma

Guaraqueçaba não tem Polícia Civil. A antiga delegacia está abandonada há 10 anos, mas o dinheiro para a manutenção de uma unidade na cidade continua saindo dos cofres da corporação. Foram R$ 153 mil nos últimos 8 anos, R$ 31 mil só em 2011.
VIDA E CIDADANIA | 2:47

Polícia gasta R$ 7 mil em placa para delegacia fantasma

O delegado de Antonina, responsável por Guaraqueçaba, conta que Polícia Civil já pediu fabricação da placa de identificação da unidade. A delegacia fantasma de Guaraqueçaba recebeu R$ 31 mil em 2011. A verba para a compra da placa foi liberada há um ano.

Professor homossexual: sem kit, escola silenciou sobre homofobia


Rubenilson Araujo utiliza livros para debater a diversidade sexual em uma escola pública do Tocantins. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
Rubenilson Araujo utiliza livros para debater a diversidade sexual em uma escola pública do Tocantins
Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
ANGELA CHAGAS
Homossexual assumido, Rubenilson Araujo é o único professor da escola estadual Frei José Maria Audrin, em Porto Nacional (TO), que tem "coragem", como ele mesmo define, de discutir a homofobia na sala de aula. Segundo ele, a posição da presidente Dilma Rousseff ao vetar o kit que seria distribuído em escolas públicas há um ano foi responsável por um grande retrocesso no combate ao preconceito contra gays, bissexuais, travestis e transexuais nas escolas. "A gente nota que os professores já viam o tema como tabu e a posição da presidente contra o material reforçou ainda mais isso. As escolas silenciaram completamente e ninguém mais cogita falar em homofobia", afirma.
Para o professor de português, qualquer posição da presidente da República tem um impacto grande sobre a população, ainda mais quando o tema é considerado "difícil". "Todos silenciaram, mas o problema só agravou. O número de crianças e adolescentes vítimas da discriminação nas nossas escolas aumenta a cada dia", afirma o educador, que desenvolve atividades nas turmas de 8º e 9º ano do ensino fundamental para que os alunos aprendam a respeitar a diversidade.
Araujo tenta ajudar a mudar as estatísticas de violência contra os homossexuais porque sabe muito bem o sofrimento causado pelo preconceito por "ser diferente". "Fui vítima de homofobia durante toda a minha vida escolar. Chegava em casa com marcas, porque apanhava muito na escola. Meu refúgio foi estudar", conta o professor de 36 anos, que apresentou sua tese de mestrado sobre diversidade sexual no final de 2011 na Universidade Federal do Tocantins (UFT). "Quando escolhi ser professor, também enfrentei preconceito e até hoje enfrento de algumas pessoas. Mas meus alunos aprenderam a me respeitar".
Nas aulas de português da escola, além dos clássicos de Machado de Assis e Aluísio Azevedo, os alunos passaram a se dedicar à literatura infanto-juvenil, com obras que abordam a temática da diversidade sexual.Olivia tem dois papais, de Márcia Leite, e O gato que gostava de cenoura, de Rubem Alves, são alguns exemplos de livros que fazem parte das atividades em sala de aula. "Os alunos leem e depois promovemos um debate para discutir a questão da identidade, do respeito às diferenças", conta o professor, que leciona há 17 anos.
Araujo diz que todos os alunos sabem da sua orientação sexual. "Nos debates eles já me perguntaram: 'professor você é gay?'. Eu expliquei que era homossexual e um deles me respondeu que queria ser meu amigo. É uma relação harmoniosa, eles aprenderam a respeitar", comemora. O educador conta que desde que o trabalho começou a ser feito na escola, ele percebe que o convívio entre os colegas melhorou. "No 8º ano tenho um aluno que enfrentava violência verbal por ser muito próximo das meninas. Ele estava sempre com as garotas no intervalo e os outros incomodavam. Percebo que isso começou a mudar, os outros passaram a respeitá-lo mais e houve até uma integração maior entre os colegas", afirma.
O educador diz ainda que tem conquistado o apoio da direção da escola para o seu trabalho. "Eu apresento um relatório quinzenal das atividades que desenvolvo e nunca tive nenhum problema", diz. Apesar disso, Araujo sente falta de um maior engajamento dos outros docentes. "Uma professora das séries iniciais até se interessou pelo meu trabalho, principalmente porque os livros têm uma linguagem bem infantil, mas disse que não teria coragem de discutir isso com os alunos. Às vezes sinto que estou sozinho nessa luta", completa.
Qualificação dos professores
Para o professor do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pedro Paulo Bicalho, a falta de interesse dos educadores em discutir a homofobia é resultado do despreparo para tratar temas considerados difíceis. "Os professores não só se sentem despreparados, como não existe nenhum tipo de discussão com eles. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) coloca a diversidade como um tema transversal, mas o que nos vemos ocorrer é que isso é trabalhado de maneira muito iniciante por um professor de ciências, como um tema biologizante, da sexualidade com fins reprodutivos".
Bicalho coordena o curso de extensão em Diversidade Sexual nas Escolas promovido pela UFRJ para capacitar educadores para lidar com a homofobia. "O curso existe desde 2006 e temos capacitado uma média de 600 professores por ano", afirma ao destacar que faltam vagas devido ao interesse. "A grande questão é que a homofobia está batendo na porta do professor e ele não sabe como reagir. Muitas enfrentam o problema em casa também, com os seus filhos", comenta. Segundo ele, infelizmente o trabalho feito pela UFRJ ainda é muito pequeno se comparado à necessidade do País. "A capacitação dos professores para tratar da diversidade sexual e do respeito aos direitos humanos deveria ser uma política de Estado. Deveria fazer parte de toda a educação formal do Brasil", diz o professor.