Ilustração: Osvalter Urbinati Filho
literatura polonesa
O Egito, a Polônia e o poder, segundo Prus
Um dos principais nomes da literatura de seu
país, o jornalista Boleslaw Prus captou em sua obra literária um
dilatado espectro de matizes da vida social polonesa de seu tempo
Quando Schulz nasceu, achava-se no auge de
sua carreira outro representante ilustre da literatura polonesa,
Boleslaw Prus, que acaba de ter uma de suas obras mais notáveis
publicada no Brasil. É uma feliz coincidência: tem-se assim oportunidade
de apreciar, lado a lado, os experimentos de vanguarda da prosa poética
schulziana e um tanto da robusta escola que a precedeu e cujo legado
constitui os alicerces de toda a ficção criada mais tarde na Polônia.
Prus
– cujo nome de batismo era Aleksander Glowacki – viveu de 1847 a 1912.
Dificuldades financeiras obrigaram-no a interromper os estudos, e a
buscar sustento trabalhando na imprensa. Arregimentavam-se nesse meio,
em Varsóvia e noutras cidades, os jovens talentos positivistas, imbuídos
de um amálgama de ideias eclético e pouco original, sem dúvida, mas de
teor progressista no contexto. Recorde-se que desde o fim do século 18 a
Polônia deixara de existir como nação independente, tendo então seu
território repartido e anexado às três potências limítrofes: a Prússia, a
Áustria e a Rússia. Na esteira do fracasso das insurreições contra tal
estado de coisas – em 1830 e 1863 –, ambas atreladas ao movimento
romântico, as diretrizes que o positivismo polonês depreendia de Darwin,
Comte e Spencer ensinavam uma atitude menos dada a excessos ou
rompantes, e mais ciosa da ponderação e da análise, um olhar menos
propenso a ímpetos idealizadores ou místicos, e mais rente à matéria do
real. Conhecida, esta talvez se deixasse, aos poucos, modificar. O que
não puderam fazer, envoltos em devaneio e sonho, os partidários do
romantismo.
É fato, portanto, que se profissionalizando como escritor junto
aos órgãos da imprensa Prus tem de lidar com adversidades – a rotina
desgastante, os limites impostos pela censura e pela própria lógica de
mercado inerente a jornais e revistas. Mas o corre-corre das redações
será um proveitoso aprendizado, proporcionando ao autor não apenas uma
plataforma privilegiada de observação, como também uma arena para o
confronto de opiniões e uma oficina para testar e adestrar a sua pena. A
par dos contos, da atuação de Prus nesse âmbito vão resultar, por
exemplo, suas Crônicas Semanais, textos de uma fascinante variedade de
temas e de registros de linguagem, permeados de um humor irônico que às
vezes recorda o estilo do cronista Machado de Assis. A agudeza de vistas
do jornalismo de Prus capta um dilatado espectro de matizes da vida
social polonesa do tempo, a qual se faz presente ainda, em ampla escala
panorâmica e na microscopia da psique individual, nos romances da
maturidade, sobretudo em A Boneca (1890).
Dito isso, O Faraó – recém-publicado pela Record, em tradução de
Tomasz Barcinski, na coleção Fanfarrões, Libertinas & Outros Heróis,
organizada por Marcelo Backes (que assina o posfácio do volume) – pode
causar a princípio alguma estranheza. O pano de fundo egípcio, a forma
do romance histórico não destoa em um escritor com o perfil de Prus?
Como Henryk Sienkiewicz, em sua Trilogia (disponível em edição da
Record), teria Prus se decidido a romancear o passado, desfiando tramas
coloridas, cheias de amor e de aventura, para conforto do leitor? Ou
teria ele encontrado no Vale do Nilo um polígono em que foi possível se
debruçar, com as ferramentas da ficção, sobre a problemática do poder? O
conto “Das Lendas do Antigo Egito”, anterior de alguns anos a O Faraó,
oferecerá uma (ou duas?) resposta(s) aos curiosos.