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Professor de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Ensino - Governo do Paraná

domingo, 24 de junho de 2012

Para o ensino não virar pó de giz


Antônio More/ Gazeta do Povo / Vista do Colégio Estadual do Paraná, inaugurado em 1950: Centro de Memória é modelo para outras instituiçõesVista do Colégio Estadual do Paraná, inaugurado em 1950: Centro de Memória é modelo para outras instituições
PATRIMÔNIO

Para o ensino não virar pó de giz

Sem proteção, memória escolar conta com heroísmo e boa vontade de professores, zeladores e simpatizantes. Projeto do governo se propõe a reverter esse quadro negro. Instituições centenárias comemoram com eufórico culto ao passado.
“Matei cada cupim desta mesa”, brinca a professora Ruthi Mara Trentin Moraes, diretora do Colégio Estadual D. Pedro II, no Batel. Ela bate a mão com força no móvel torneado, uma legítima peça de antiquário, tendo ao fundo, por testemunha, dona Gelvina Correio Pacheco, primeira diretora da instituição, em 1928. “Resgatei-a no porão da escola”, acrescenta, sobre o belíssimo retrato oval em branco e preto que ornamenta a sala.
Eleitas
Confira instituições selecionadas para o Programa de Proteção às Escolas da Rede Pública
• Paranaguá – Instituto Estadual de Educação Dr. Caetano M. da Rocha, Escola Faria Sobrinho.
• Antonina – Centro Dr. Brasílio Machado, Colégio Moyses Lupion, Colégio Rocha Pombo.
• Curitiba – Instituto de Educação, Estadual, Xavier da Silva, Tiradentes, Dom Pedro II, Grupo Escolar Cruz Machado.
• Ponta Grossa – Colégio Regente Feijó.
• Lapa – Colégio São José.
Sobre maquetes e memórias
Pesquisar acervos escolares não é tarefa para amadores. É preciso ter paciência de Jó para enfrentar a resistência de professores – temerosos de sumiços e do que vai ser feito dos seus tesouros reunidos semestre após semestre. O historiador da UFPR Marcus Levy Bencostta, 48 anos, bem o sabe.
Primeiro, ele investigou fotos de colégio, verdadeiros rituais na aurora das nossas vidas. Bateu em muita porta e levou corridão. Há uma década foi a vez dos espaços – em especial grupos escolares da Curitiba do final do século 19 a meados do século 20. O trabalho liderado por Marcus já inspirou nada menos do que cinco doutorados e quatro mestrados na área da Educação, um grupo de estudos local e firmou o nome do pesquisador no circuito nacional de memória escolar. Uma das idealizadoras do projeto paranaense é sua ex-aluna Maria Helena Pupo.
Em meio a tanto respaldo acadêmico, impossível não prestar atenção numa estratégia irresistível da turma de Marcus – o grupo moldou maquetes das escolas mais antigas da cidade, entre elas, várias desaparecidas ou modificadas, como a Oliveira Bello, a Carvalho, Professor Cleto e a Tiradentes. O efeito sobre o espectador é imediato – quer brincar de escolinha. O resto vem por acréscimo: quer-se entender a mentalidade que se esconde por trás daquelas colunas e brasões.
É conversa ilustrada. Os grupos escolares centenários reproduziam em suas paredes o desejo de se parecer com a Europa. Eram também uma afirmação imponente do poder republicano, uma prática nacionalista por excelência, tudo moldado no estilo eclético. “Há uma tendência mundial de integrar as escolas aos espaços de preservação da memória”, acrescenta o estudioso sobre os prédios amados, porém cada vez mais vistos apenas de fora.
Chegamos tarde à preservação? “Sim”. Parte das lacunas podem ser preenchidas com depoimentos e documentos de ex-alunos e de seus filhos e netos. E por futuras pesquisas que sairão desses museus vivos, nos quais nunca circulam menos de mil pessoas por dia.
Quem diria
Muros altos escondem uma das arquiteturas escolares mais interessantes do Paraná – o Colégio Estadual Tiradentes, próximo ao Passeio Público, para o qual tem vista privilegiada. O projeto é de ninguém menos do que Rubens Meister, o mesmo arquiteto do Teatro Guaíra, e foi tombado por integrar as obras do Centenário da Emancipação Política do Paraná.
Na concepção original, passantes poderiam ver o pátio com arcos e haveria também um anfiteatro, cuja conclusão foi embargada pela prefeitura. Hoje a área tem uma churrasqueira e serve de oficina para carteiras quebradas. Em tempo – o Tiradentes foi concebido para ser o Museu de História Natural, hoje no Capão da Imbuia.
O diretor, Dario Zocche, 51 anos, responde hoje pela escola cujo nome surgiu em 1892 e abrigou uma das maiores educadoras do Paraná, Júlia Wanderley. Como as demais instituições de ensino do Centro, os aproximados mil alunos vêm de todos os cantos da cidade. Atrás dos muros, desfrutam uma das joias da cidade.
O inventário de Ruthi se prolonga pelos corredores e salas da instituição – uma das cinco erguidas no país, todas idênticas, em honra do imperador Pedro II, no centenário de seu nascimento. A diretora mal sabe, mas faz parte de uma confraria informal de profissionais da escola que, assim como ela, têm garantido, ao longo de mais de um século, a preservação de objetos educativos, livros-ata, boletins, fotografias, mobiliário e, claro, edifícios inteiros sujeitos diariamente a piás e gurias dotados da força de Toddy.
Não fossem professores, zeladoras e até pais de aluno que salvaram documentos em suas casas, restariam farrapos à memória do ensino. Museus escolares e afins são uma novidade em formação no Brasil, com ênfase nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Antes que começassem a existir, um diretor em fúria ou a tia da limpeza cega pela ignorância poderiam, sem vigilância ou punição, atear fogo a décadas inteiras de informação educacional ou tomar para si cadeiras e estantes art déco. E muitos de fato o fizeram, como é possível confirmar em visita às instituições mais antigas ou em consulta a seus arquivos, não raro desdentados.
Garantir um mínimo de segurança a esses acervos é uma reivindicação antiga dos educadores – em particular os que trabalham em escolas já declaradas patrimônio histórico. “Nós nos sentimos muito vulneráveis”, reconhece José Frederico de Mello, 60 anos, há 20 na direção do Instituto de Educação Erasmo Pilotto, fundado em 1876 e desde 1922 na sede da Rua Emiliano Perneta. Na sala em que trabalha, há telas de De Bona e Alfredo Andersen, sem falar no mobiliário que deixaria Ruthi – a do D. Pedro II – com os olhos rasos d’água. “Nos tornamos um tipo de especialista que não estava previsto”, avisa Frederico enquanto conduz a reportagem pelas escadarias solenes por onde passaram milhares de professorinhas, entre elas a poeta Helena Kolody e a mestra Eny Caldeira.
O motivo do tour – que permite ver o fausto, mas também as avarias da construção – é conhecido. Há pouco mais de um mês, o governo do estado lançou um ambicioso programa de restauro, conservação e memória das escolas públicas históricas do Paraná. Em princípio, estão cobertas pelo projeto 13 instituições tombadas pelo Patrimônio (veja lista), mas, caso se torne uma política permanente, como se anuncia, outros colégios se somarão. Com sorte, globos, palmatórias, laboratórios de química e as incríveis saias plissadas sairão dos armários onde estão.
De acordo com o professor Francisco França, um dos 15 técnicos destacados diretamente para o programa, 562 das 2.139 escolas estaduais foram fundadas há mais de 50 anos, logo precisam de uma informação mínima sobre como cuidar do passado. Como será feito esse mutirão é que são elas. O projeto prevê a captação de uma verba inicial de R$ 7 milhões, dos quais nenhum tostão será gasto com tinta. “Esse é o custo apenas dos projetos de restauro. É muito caro”, calcula a assessora de governo Sandra Teresa da Silva, 48 anos, entusiasta da proposta.
Como se diz, vai ser preciso trocar pneu com o carro andando. “Estamos na fase preliminar”, admite Sandra, diante da lista de interrogações que lhe são apresentadas. Além de telhados caindo e vitrais se espatifando – ainda que não via de regra – vai ser preciso fazer muita articulação política para garantir profissionais de museologia no seio das escolas. Outra questão é se os acervos devem ficar nas instituições ou se serão centralizados num futuro “Museu da Escola”, cuja sede, deseja-se, poderia ser o antigo Grupo Escolar Cruz Machado, hoje tristemente convertido na Delegacia Antitóxicos, na Meia Pracinha do Batel.
Dá gosto acompanhar a discussão que tomou conta das escolas integradas ao projeto, nas quais virou onda olhar antigos boletins, preenchidos com elegantes caligrafias. Há certa ansiedade. Trabalhar numa instituição centenária é um orgulho, mas tem seu preço. O pé-direito pode ultrapassar 7 metros e, tomara, uma teia de aranha não se instale por lá. Um vidro quebrado chega a custar R$ 250. Não bastasse, resta a sensação de que a sociedade não enxerga mais os colégios de outrora. São poucos os egressos e menos ainda os filantropos, que devolvem ao ensino um pouco do que receberam.
Uma das esperanças é que o arrastão da memória promovido pelo Estado faça essa gente ultrapassar os portões, afinal, para quem vive debaixo de colunas e capitéis, os que ali estudaram são lembrados todos os dias. No Instituto, as secretárias aceitam até abrir arquivos para exibir boletins de 1937 ou 1946, basta pedir. Esse sentimento explica a emoção que o arquiteto e pesquisador da UFPR Key Imaguire provocou no Colégio Estadual do Paraná, onde estudou de 1961 a 1966. Levado pela reportagem, ele trajava o casaco do uniforme de sua adolescência, intacto, com emblema e tudo. Virou estrela.
“Estávamos esperando por você”, disse uma emocionada professora Malu Rocha, assessora da direção. O CEP, como é chamado, já tem um centro de memória, uma profissional à frente, Ana Lygia Czap, e namora uma sede – a casa do guardião da escola. Seu acervo é um desacato, pois as origens do colégio, inaugurado em 1950, remontam a 1846. Dá para imaginar? Pois se vista de gala para visitá-lo.
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VIDA E CIDADANIA | 3:57

Instituto de Educação: onde Kolody ensinava Biologia

Com 136 anos de funcionamento, o Instituto de Educação do Paraná – um dos 13 beneficiários do programa de conservação de escolas tombadas do estado – abrigou principais fases do ensino no Paraná. Conheça o prédio por dentro e saiba um pouco de sua história.

Espaço para crescer, muito a resolver


Economia

Domingo, 24/06/2012

O FUTURO DO PORTO

Felipe Rosa/Gazeta do Povo
Felipe  Rosa/Gazeta do Povo / Poeira levantada durante o embarque de grãos: hoje não há programa conjunto de gestão de resíduos em Paranaguá, onde as proximidades do porto cheiram a soja molhada e fertilizantesPoeira levantada durante o embarque de grãos: hoje não há programa conjunto de gestão de resíduos em Paranaguá, onde as proximidades do porto cheiram a soja molhada e fertilizantes
DESENVOLVIMENTO

Espaço para crescer, muito a resolver

Movimento de cargas no Porto de Paranaguá deve dobrar até 2030, mas o terminal ainda não resolveu velhos problemas sociais e ambientais decorrentes de sua operação.
O novo Plano de Desen­­­vol­vimento e Zoneamento do Porto Organizado de Para­­­na­guá (PDZPO), em fase final de análise, deve dar origem, até o ano que vem, ao maior plano de arrendamento portuário do Brasil. Desenvolvido pelo Laboratório de Transportes e Logística da Universidade Federal de Santa Catarina (LabTrans/UFSC) em parceria com a Administração dos Portos de Paranaguá e Anto­nina (Appa), o documento projeta que a demanda de cargas no terminal mais que dobrará até 2030, passando das 41 milhões de toneladas de 2011 para mais de 83 milhões de toneladas. Mas também aponta uma série de falhas da Appa, como o não cumprimento da legislação ambiental e a falta de manutenção das condições operacionais do terminal.
Município e governo estadual também ficam em maus lençóis ao se constatar que não existem maiores cuidados com a relação do porto com a cidade de Paranaguá e o litoral como um todo. Hoje não há qualquer programa conjunto de limpeza e gestão de resíduos na cidade – que cheira a fertilizantes e soja molhada nas principais vias de acesso ao porto –, e também faltam outras iniciativas fundamentais para a qualidade de vida dos mais de 140 mil habitantes do município.
Dê sua opinião
Paranaguá pode suportar mais um ciclo de crescimento portuário? Que problemas precisam de solução urgente para melhorar a eficiência do terminal e a qualidade de vida na cidade?

“Por que não resolver os problemas quase crônicos, que implicam na falta de qualidade de vida da população, antes de liberar os instrumentos para uma expansão? Será que o porto precisa continuar a crescer sem dar o retorno que é de direito da população que vive em Paranaguá?”, questiona o promotor estadual Alexandre Gaio.
Contrapartidas
O promotor, ambientalistas e especialistas na área de transporte se perguntam se uma cidade que possui menos de 4,9% de sua área total ainda disponível e adequada para a expansão humana, segundo seu Plano Diretor, pode suportar mais um ciclo de expansão portuária.
Entre cerca de 500 mil metros quadrados de novos arrendamentos previstos e tantas outras áreas que terão suas concessões vencendo neste ano e no próximo, ao menos mais dez empresas de peso devem vir para o terminal paranaense. “A população precisa de uma contrapartida maior que o emprego”, avalia Gaio.
Segundo um levantamento da Appa feito em 2010, o porto e as empresas que o utilizam empregam cerca de 16 mil pessoas diretamente, mais da metade da mão de obra formal de Paranaguá. A cidade tem a quinta maior economia do estado, mas apenas o 162.º Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e uma renda média de R$ 639 - menos que um salário mínimo.
O economista Luiz Antô­­­­nio Fayet, consultor da Con­­­federação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e membro do Conselho de Autoridade Portuária (CAP) de Paranaguá, examina o PDZPO desde 25 de maio. Segundo ele, o estudo do LabTrans tem algumas inconsistências e ainda deve passar por modificações do próprio CAP, além da avaliação legal da Secretaria dos Portos (SEP) e da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Mas diz que o documento é o primeiro, em muito anos, a tratar o planejamento do porto “para valer”. “As atualizações anteriores do zoneamento do Porto de Paranaguá foram mera formalidade. É a primeira vez que vejo um bom debate sobre o assunto dentro da comunidade portuária”, conta.

sábado, 23 de junho de 2012

O resgate da vida de Vladimir Kozák



Acervo Museu Paranaense / Em uma das suas expedições, Vladimir Kozák posa entre índios do XinguEm uma das suas expedições, Vladimir Kozák posa entre índios do Xingu
MEMÓRIA

O resgate da vida de Vladimir Kozák

Pesquisadores e entusiastas da obra do “cineasta dos xetás” decifram os mistérios do homem que viveu 40 anos em Curitiba.
Em 1974, ao assumir o laboratório de fotografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o fotógrafo Paulo Koehler percebeu que as gavetas de seu novo posto de trabalho estavam abarrotadas de negativos deixados por seu antecessor na função – o checo Vladimir Kozák. Não era assunto para ser resolvido pelas mulheres da limpeza, o que já vinha acontecendo. Embora cumprisse uma função burocrática na UFPR – ele registrava pesquisas de campo dos professores da casa –, Kozák firmara seu nome como cineasta e indigenista, sendo imediatamente associado ao povo xetá, em via de extinção, filmado por ele a partir de 1951, na Serra dos Dourados, Norte do Paraná.
Seu trabalho junto a essa e outras tribos obtivera repercussão internacional, tendo Kozák publicado artigos em revistas americanas, exposto fotos e desenhos de próprio punho no Canadá e incorporado seus filmes ao Museu do Homem, na França. Aquele material esquecido em uma sala do edifício D. Pedro II, ainda que secundário, poderia se somar ao legado do estrangeiro.
Acervo Museu Paranaense
Acervo Museu Paranaense / Cena de um casamento italiano de 1955 para um estudo sobre a vida na Colônia Santa FelicidadeAmpliar imagem
Cena de um casamento italiano de 1955 para um estudo sobre a vida na Colônia Santa Felicidade
Revelações
Entrevistados contaram pequenas histórias de um dos maiores nomes do documentarismo e indigenismo brasileiro:
Celibato
Uma das curiosidades sobre a vida de Vladimir Kozák é por que não teria se casado. Em confidência ao colega de trabalho Oldemar Blasi, ele teria contado que na juventude, quando aprendeu a consertar aviões, na antiga Tchecoslováquia, sofreu um acidente com uma mola, na região dos genitais, e se tornou impotente.
A irmã
A aquarelista Karla Kozák passou a viver no Brasil com o irmão, Vladimir, depois da morte dos pais. Ela o acompanhava nas expedições e cuidava da alimentação e da casa. Em uma das viagens, contraiu uma infecção que a castigou. “Era uma mulher grande como ele, mas ficou muito magra. Ele nunca mais foi o mesmo”, conta Blasi. Karla morreu em 1960. Seu quarto na casa do Uberaba ficou fechado por duas décadas, tal como o deixou. Foi aberto em 1979, depois da morte do cineasta.
Mercantilismo
O fato de Kozák vender parte de seu acervo pessoal para uma instituição canadense, entre outras negociações, causava mal-estar entre os antropólogos e arqueólogos, que passaram a acusá-lo de mercantilista. Os mais próximos atestam que ele vendeu o que conseguiu em viagens solo e que era essa a única maneira de custear filmes coloridos, que eram revelados nos Estados Unidos. Ao morrer, o cineasta ainda tinha créditos nos laboratórios americanos.
Vigia dos “gatos”
Com a exploração comercial­­ da eletricidade no Paraná, as contas de luz ficaram altas. Curiti­­ba­­nos se especializaram em fa­­zer “gatos” de luz. Uma das funções de Kozák nessas companhias, dado suas habilidades técnicas, era ir de porta em porta das casas para identificar­­ as peripécias dos fraudadores.
Loureiro Fernandes
Embora tenha sido o etnólogo o responsável por trazer Kozák para o Museu Paranaense e posteriormente para a UFPR, os dois tinham relacionamento difícil. “Viviam em litígio”, comenta Igor Chmyz. As brigas eram motivadas nos trabalhos de campo, a exemplo da ocasião em que Kozák ficou dias e dias “abraçado” aos xetás para que produzissem um machado de pedra. “Era um trabalho difícil”. A contenda era quase sempre a mesma: a quem pertencia o trabalho? Kozák o reivindicava para seu acervo. Fernandes, para a universidade.
Cotidiano
Igor Chmyz conta que via Kozák com frequência na UFPR. Ficaram amigos. É o único a descrevê-lo como cordato. E dele aprendeu técnicas inimagináveis na década de 1960, como a de impermeabilizar barracas de acampamento. Chmyz também o via preparando farinhas de biju com ovos, que acondicionava em latas – verdadeiras barrinhas de cereal pré-históricas que o sustentavam na mata. “Mas acabava dando-as aos índios, aos quais nada se podia negar”. A carência de comida o obrigava a se nutrir com o que os índios lhe davam, quase sempre adoecendo. Essa carência explica a obsessão de Kozák por comida. “De tanto passar fome, comia compulsivamente. Os bolsos de seu colete de fotógrafo estavam sempre recheados de alimentos.” Na última vez que o visitou, provavelmente em 1978, Igor o presenteou com um bolo de chocolate.
Anedota
As obsessões de Kozák provocavam situações curiosas. Certa vez, guardou uma cascavel morta, em um saco plástico, na geladeira da universidade. À noite, reuniu xetás no Uberaba para documentar como se fazia alimento com as cobras. “As zeladoras da UFPR mal podiam imaginar o que havia nas sacolas que ele carregava.”
Solidão
A morte de Karla agravou o temperamento retraído de Kozák. Conta-se que nos últimos anos, chegou a pregar as janelas de sua casa, temendo saques a seu acervo, e cortou a energia elétrica – o que não deixa de ser curioso em se tratando de um ex-funcionário da Força e Luz. Após sua morte, em 1979, peças do acervo e sua Rural foram roubadas, mesmo com segurança policial à porta da casa.
Linha do tempo
 19 de abril de 1897: Vladimir Kozák nasce em Brystice pod Hostynem, próximo a Brno, Morávia, então Tchecoslováquia. Na adolescência faz curso técnico de Engenharia Mecânica e domina bases do desenho, pintura e escultura.
 1914-1918: Participa da Primeira Grande Guerra.
 1924: Decide se mudar para os EUA, atraído pelo desejo de conhecer os índios norte-americanos. Mas seus conhecimentos em eletricidade e a possibilidade de empregos na América do Sul, o trazem para o Brasil. Vive na Bahia, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Visita as primeiras reservas indígenas.
 1938: Muda-se para Curitiba, onde se torna funcionário da Bond and Shere e da Força e Luz do Paraná. Mora em princípio na Rua Alferes Poli e posteriormente no Uberaba. Mantém rotina de filmar e fotografar tribos e manifestações populares no interior do país.
 1940: Em companhia de amigos, descobre a Gruta da Fada, na Região Metropolitana de Curitiba. Nesta década, participa da implantação da Usina do Rio São João, em Chaminé, em São José dos Pinhais.
 1946: Aposentado na Força e Luz, trava amizade com o pesquisador Loureiro Fernandes e se torna voluntário no Museu Paranaense. É nomeado diretor da Seção de Cinema Educativo do museu. Produz filmes sobre cidades do Litoral, Vila Velha e Foz, exibidos nas escolas públicas.
 Década de 1950: Faz expedições para o Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Pará e Alto Xingú, produzindo material fotográfico, desenhos e pinturas que mais tarde venderá a museus do exterior, como alternativa para sustentar a compra de filmes coloridos, que eram revelados nos EUA. Com a federalização da UFPR e a diminuição dos investimentos no Museu Paranaense, é levado por Loureiro Fernandes para a UFPR, na qual passa a trabalhar como técnico de fotocinematografia.
 1955: Ao lado de Loureiro Fernandes, Kozák faz sua primeira incursão à Serra dos Dourados e toma contato com os xetás, em vias de extinção. Faz nova viagem em 1961. Expedições deram origem a seu documentário mais importante.
 1960: Morre Karla Kozák, sua irmã mais velha, em decorrência do desgaste físico provocado pelas viagens, nas quais o acompanhava. Fato torna Kozák ainda mais introspectivo.
 1963: Publica artigo sobre funeral bororo na revista norte-americana Natural History.
 1968: Expõe fotos e pastéis no Glenbow Alberta Institut Museum, no Canadá.
 1972: Publica novo artigo na Natural History, agora sobre os xetás.
 3 de janeiro de 1979: Morre Vladimir Kozák, aos 81 anos. Os últimos anos foram de isolamento na casa do Uberaba, amparado por amigos como Edilberto Trevisan e Igor Chmyz.

Fonte: Oldemar Blasi; Museu Paranaense.
Koehler não estava enganado. Salvou dois conjuntos de imagens de irem para o lixo. O primeiro é uma série de fotos da Colônia Witmarsum, em Palmeira, nos Campos Gerais, provavelmente da década de 1950, destinado a um estudo sobre a ocupação dos Campos Gerais. O segundo é o registro de um casamento à italiana, no ano de 1955, feito para um estudo da historiadora Altiva Pilatti Balhana, editado posteriormente em revista acadêmica.
Passados 30 anos, o material foi restaurado por Koehler no sistema fine art e repassado ao Museu Paranaense, no qual estão 44 mil itens do acervo de Kozák, entre objetos pessoais, fotografias e 88 dos fabulosos filmes que produziu, particularmente sobre índios e sobre a cultura popular brasileira. A maior parte do material estava na casa de Kozák, no bairro Uberaba, até 1979, ano de sua morte. Como não tinha herdeiros, o patrimônio ficou sob a custódia do Estado.
Confraria
O que Koehler não podia prever, ao guardar os lotes, era que, nas três décadas que se seguiram, uma espécie de confraria informal se agregaria em torno da memória do cineasta, atraída pela importância da sua obra e pelos mistérios que ainda envolvem sua vida. Não por menos. Impossível não se render à curiosidade diante daquele homem de cultura extraordinária, poliglota, criativo, capaz de passar longas jornadas na mata, dado a gestos grandiosos de amor pelos índios – chegava a fica nu como eles –, mas ao mesmo tempo arredio, espartano, amargo e solitário, próximo de um ermitão.
Cada fato novo em torno dele, ainda que pequeno, causa turbulência. As fotos de Witmarsum e Santa Felicidade são um exemplo. Chamam atenção para um lado menos valorizado da trajetória de Kozák – de funcionário da UFPR –, ainda que tenha passado mais de duas décadas na instituição. “Era uma fotografia documental, bem diferente do que fazia por sua conta, ainda que tenham um toque particular. Ele era uma figura meio marginal na universidade”, sugere Koehler. “Em campo, ele contribuía muito, dava sugestões”, contrapõe o arqueólogo Igor Chmyz, um dos poucos que conseguiram travar amizade com Kozák.
As divergências indicam que o enigma Vladimir Kozák ainda vai render muitas surpresas, particularmente no que diz respeito ao acervo do Museu Paranaense. Além de um catálogo prometido para este ano, a equipe do museu, sob orientação da antropóloga Maria Fernanda Maranhão, faz a leitura das cerca de 3 mil cartas do cineasta. Fernanda adianta que ele falava pouco de si – destacando um elogio que fez à mãe, mas tratando em geral de assuntos de trabalho. O arqueólogo Oldemar Blasi, primeiro responsável pelo acervo, em 1979, acha que não. “Ele tinha muitas queixas contra o Brasil, a burocracia e tudo mais. Foi um homem amargurado e não escondia.” Quanto a Kozák, como se vê, não há consenso.
Perfil
O viajante amargurado
Os arqueólogos veteranos da UFPR Oldemar Blasi e Igor Chmyz fizeram expedições com Vladimir Kozák entre os anos 1950 e 1960. À maneira do historiador Edilberto Trevisan, morto em 2010, com folga a fonte mais importante sobre o cineasta checo, Chmyz participou de sua intimidade. Mas foi Blasi, à frente do Museu Paranaense, quem listou o acervo, acomodado às escâncaras na casa em que Kozák vivia no Uberaba, hoje uma biblioteca municipal.
Cada um, a seu modo, guarda parte da biografia desse homem surpreendente – uma fortaleza de 1,90m, voz de trovão em sotaque martelado, temperamento de neurótico de guerra, capaz de perder 20 quilos durante as expedições. Os que não o conheceram, mas que se juntaram ao seu “círculo de confiança”, não fogem à regra. Somam dados e perguntas a essa biografia que não se resolve em poucas linhas.
O cineasta Fernando Severo, diretor do Museu da Imagem e do Som, projetou Kozák nacional e internacionalmente com o premiado curta-metragem O mundo perdido de Kozák, lançado em 1988, vencedor de 17 prêmios. Praticamente o apresentou às novas gerações, tornando-se um marco na curiosidade em torno do visitante estrangeiro. A antropóloga Maria Fernanda Maranhão o “descobriu” em 1987 ao abrir uma gaveta no Museu Paranaense. “Estava cheia de documentos”, conta. Hoje, a pesquisadora tem acesso às cartas do cineasta e é autoridade no acervo que deixou. Deve-se citar ainda a diretora do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR, a antropóloga Márcia Rossato, apontada como a maior estudiosa de Kozák; e a etnóloga Maria da Graça Simão.
Para Blasi, as agruras da Primeira Grande Guerra explicam parte do temperamento e da obsessão de Kozák, que viveu em Curitiba de 1938 a 1979. “Ele me contou ter mergulhado em águas geladas, durante o conflito, para construir uma ponte”, lembra o arqueólogo. A decepção com a Europa teria reforçado seu imaginário sobre o “elo perdido” dos índios americanos, cujas histórias o checo cultivava lendo a obra de Karl May.
Práticas
Chmyz – que descreve com detalhes o temperamento e as práticas do cineasta – diz que Kozák pode ser comparado aos enciclopedistas do século 18, mas, em vez de escrever verbetes, fotografava. “Seu impulso estava em documentar. Tinha obsessão por isso. Uma vez, em minha casa, viu na televisão um documentário sobre uma onça. Ficou inquieto. Queria saber como conseguiram fazer aquilo sem serem atacados. Acho que ele ficou no Brasil por causa da exuberância do país. O país o fascinava.”
A antropóloga Maria Fernanda percebe Kozák como um legítimo homem do século 19. Ele falava checo, alemão, inglês e português. Escrevia, fotografava, filmava. “Mas penso que ele se via como um ilustrador. Foi ao conhecer ilustrações europeias que se encantou com os índios”, pontua a pesquisadora.
Para o fotógrafo Paulo Koehler, Kozák “era um antropólogo sem carteirinha”. Sua opinião é baseada em um fato corrente entre os pesquisadores. No afã de registrar o cotidiano dos índios, montava cenas, produzindo materiais e restaurando objetos quebrados, uma de suas habilidades. A prática é reprovável no meio científico. Para o viajante – que previa o desaparecimento das culturas que visitava – não.

Em exposição
“Vladimir Kozák, o olhar de um viajante” e “Um olhar feminino sobre a natureza do Paraná: Karla Kozák”.
Local: Museu Paranaense (Rua Kellers, 289, São Francisco)
Quando: de 3ª a 6ª das 9 às 17 horas; sábado e domingo das 11 às 15 horas.
Informações: (41) 3304 3300.

“Vladimir Kozák: fotógrafo”.
Local: Memorial de Curitiba (Largo da Ordem).
Quando: até 15 de julho. Horário comercial.

Grande Escritor Pedro Martins Kokuszka "ladrilhando" o Presente, com histórias do Passado, para não serem esquecidas no Futuro!

Lançamento de livros Infanto-Juvenis do Autor e Prof.
 Pedro Martin Kokuszka


             Na manhã desta sexta-feira(22), no Centro de Convenções Edson Dalke,foi realizado a segunda parte do lançamento dos livros Infanto-Juvenis do Autor e Prof. Pedro Martin Kokuszka, com Mais quatro maravilhosos contos: Nhô Bálsamo (Zeloá), A Carruagem ( Bertolina/Tedete),Visagens na Botiatuba (Albino) e Histórias que o Povo Conta ( Antônio/Seu Tono). Estavam presentes autoridades como o Sr. Prefeito Vilson Goinski, O Deputado João Arruda, O vereador Estival, a Equipe da Secretaria de Educação e Cultura, no comando de Ana Paula Wolf entre outros convidados Ilustres.

        
        Numa  magnífica apresentação  o Prof. Pedro Martin Kokuszka, deu abertura ao lançamento dos livros, apresentando cada um dos Protagonistas das obras, juntamente com o Sr. Prefeito Municipal de Almirante Tamandaré Vilson  Goinski, este, destacando a importância de resgatar nossa história e enaltecer os moradores que contribuíram muito para o crescimento histórico e literário da Cidade.
         A grandiosidade da Parceria Prefeitura/Pedro Kokuszka, não estaria plena, se não fosse um trabalho destinado a um público tão importante quanto todas as autoridades ali presentes. Os alunos de 1ª ao  5ª ano das Escola Municipais de Almirante Tamandaré, público este que serão os legítimos guardadores das histórias, que aqui são ladrilhadas para jamais serem apagadas da Memória do Município.




Fotografias relacionadas:





























sexta-feira, 22 de junho de 2012

Convênio garante R$ 73 milhões a universidades do Paraná


Montante deve ser investido até 2015 e faz parte de acordo entre a Fundação Araucária – órgão estadual de fomento à pesquisa – e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
Até 2015, R$ 73 milhões serão investidos em universidades paranaenses. O montante faz parte de um convênio anunciado nesta sexta-feira (22) entre a Fundação Araucária – órgão estadual de fomento à pesquisa – e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Os três primeiros editais do acordo serão abertos na próxima segunda-feira, dia 25, e destinam-se à compra e à manutenção de equipamentos e à criação de 200 bolsas de pós-graduação – 80 de mestrado, 60 de doutorado e 60 de pós-doutorado.
Os recursos – 35% da fundação e 65% da Capes – serão investidos durante três anos e o convênio tem duração de 60 meses.
De acordo com o secretário estadual da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Alípio Leal, desde 2005, esta é a primeira vez que universidades do Paraná recebem recursos da Capes por meio da fundação.
“A proposta feita para a Capes foi aceita também em função da contrapartida que propomos, o que mostra que a nossa intenção é fazer investimento e não apenas absorver recursos em uma mão única”, afirma. O investimento deve ser empregado em todas as áreas do conhecimento.
Conforme o convênio, a Fundação Araucária deve complementar o valor das bolsas da Capes. Assim, o valor pago a alunos de mestrado passa de R$ 1.350 para R$ 1.650, de R$ 2 mil para R$ 2,5 mil a doutorandos e de R$ 3,3 mil para R$ 5 mil a estudantes de pós-doutorados. “A contrapartida do Paraná é louvável, não só pelo recurso, mas por mostrar que há o entendimento da importância da educação, da ciência e tecnologia e da inovação por parte do estado”, afirma o coordenador da Capes, Manoel Cardoso.

Pesquisa no estado
Segundo o presidente da Fundação Araucária, Paulo Brofman, o valor do convênio recém-assinado representa a metade da demanda que o estado tem para recursos em pesquisa. Segundo ele, R$ 150 milhões seriam suficientes para contemplar os projetos apresentados.
Neste ano, a fundação deve lançar 29 chamadas públicas, o que deve significar mais de 5 mil projetos. “A ciência e a tecnologia são ávidas por recursos e merecem mais recursos. Teremos o máximo de empenho para que todos os acordos sejam cumpridos pela coletividade acadêmica do nosso estado”, diz.
A retomada das negociações entre Capes e fundação aconteceu no fim do ano passado, segundo Cardoso. “O trabalho foi construído a partir de uma provocação do Paulo [Brofman], que apresentou à Capes uma radiografia muito completa da situação da pós-graduação no Paraná. Ela está bem, mas poderia estar melhor, o que vai acontecer agora com esses recursos”, disse. 

Petrobras anuncia reajuste de 7,83% para a gasolina; governo reduz imposto


Jonathan Campos/ Gazeta do Povo / Petrobras confirma aumento no preço da gasolina nas refinariasPetrobras confirma aumento no preço da gasolina nas refinarias
INFLAÇÃO NA BOMBA

Petrobras anuncia reajuste de 7,83% para a gasolina; governo reduz imposto

Os novos preços entram em vigor em 25 de junho, segunda-feira (25).

A Petrobras anunciou na noite desta sexta-feira (22) um reajuste de 7,83% para a gasolina e de 3,94% para o diesel vendido nas refinarias. Os novos preços entram em vigor em 25 de junho, segunda-feira (25).
Segundo comunicado da estatal, os preços da gasolina e do diesel sobre os quais incide o reajuste anunciado, não incluem os tributos federais CIDE e PIS/Cofins e o tributo estadual ICMS.

"Dessa forma, os preços, com impostos, cobrados das distribuidoras e pagos pelos consumidores não terão aumento", informou a Fazenda.
O Ministério da Fazenda informou que, para neutralizar os impactos dos reajustes, o governo federal vai reduzir a zero as alíquotas da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) destes combustíveis.
Esse reajuste foi definido levando em consideração a política de preços da companhia, que busca alinhar o preço dos derivados aos valores praticados no mercado internacional em uma perspectiva de médio e longo prazo.