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domingo, 29 de abril de 2012

Apartamentos da “nova classe média” são entregues com todo tipo de defeito


Aniele Nascimento/Gazeta do Povo / Enquanto não consegue se mudar para o apartamento novo, Gustavo Machado mora de aluguel em um imóvel feito pela mesma construtora. Neste, sofre com danos causados por infiltraçõesEnquanto não consegue se mudar para o apartamento novo, Gustavo Machado mora de aluguel em um imóvel feito pela mesma construtora. Neste, sofre com danos causados por infiltrações
MERCADO IMOBILIÁRIO

Finalizados a toque de caixa, imóveis de até R$ 150 mil muitas vezes não têm nem a documentação necessária para serem habitados.

Paredes tortas, buracos na alvenaria, pintura malfeita, louças fora do padrão, goteiras e infiltrações, portas lascadas e piso desnivelado. Esses são alguns dos problemas que consumidores estão encontrando em seus imóveis recém entregues, principalmente na faixa de até R$ 150 mil, valor do teto do programa Minha Casa, Minha Vida para Curitiba. Em muitos casos, as construtoras estão entregando os imóveis a toque de caixa, já em atraso, sem a documentação mínima que comprove a habitabilidade – e repassando os problemas de construção para os moradores.
O padrão de baixa qualidade se repete em vários condomínios, todos destinados ao mercado da chamada “nova classe média”, e lançados na onda do crescimento do poder de compra dessa faixa de renda. Os problemas preocupam principalmente porque agora é o momento em que a maioria das novas unidades começa a ser entregue. Em 2011, segundo estimativas da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário no Paraná (Ademi-PR), foram entregues 2.845 unidades em Curitiba. Neste ano devem ficar prontas outras 7.354 e, em 2013, calcula-se que 10.909 casas e apartamentos serão entregues na cidade.
Defeitos têm de ser sanados pela construtora
Na hora da entrega do apar­­­tamento, termos como Habite-se, averbação e condomínio começam a fazer parte do cotidiano do morador. Nesse momento, é importante ter em mente que a construtora não pode forçar os moradores a implantar o condomínio antes de receber o chamado Habite-se, documento emitido pela prefeitura que comprova que o imóvel pode ser habitado.
Desculpa
Preço do imóvel não justifica baixa qualidade
Construtora que usa o preço do imóvel para justificar defeitos de qualidade está agindo de má-fé. A advertência é da gerente jurídica do Idec, Maria Elisa Novais. Segundo ela, a empresa tem de entregar o que prometeu, independente do valor do imóvel. “O imóvel tem que funcionar e direito, não pode ter falhas que comprometam a sua estrutura. Só porque é mais barato pode ser malfeito? Esse é um pensamento de empresas que tendem a agir de má-fé”, salienta.
Luiz Fernando Pereira, consultor jurídico do Sinduscon-PR, diz que a diferença de preços entre imóveis pode influenciar, por exemplo, no isolamento acústico entre unidades. “Entretanto, quando a construtora vende o imóvel por determinado preço, ela está dizendo que por aquele valor pode entregar algo suficientemente funcional, e funcionando. Se o consumidor fosse informado que se estivesse pagando menos ele teria um produto pior, não compraria”, destaca Pereira.
Mutuários encontram dificuldades em negociar com as construtoras após a entrega dos apartamentos. Uma moradora do residencial Spazio Cosmopolitan, após meses de tentativa frustrada para resolver defeitos graves causados por infiltração em seu imóvel, postou um vídeo no YouTube intitulado “MRV – A Hora do Pesadelo”. Depois do vídeo ir ao ar e ser assistido por quase 3,5 mil pessoas, a construtora está reformando o apartamento enquanto a moradora aguarda os reparos, morando em um flat pago pela empresa.
Interatividade
Você comprou imóvel na planta e quando recebeu encontrou defeitos? A construtora forçou a entrega do imóvel mesmo com irregularidades?
As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.
Serviço
Boca no trombone
Denúncias ao MP-PR podem ser encaminhadas para o e-mail consumidor@mp.pr.gov.br ou diretamente nas Promotorias do Consumidor das comarcas. Informações sobre a câmara de mediação do Crea-PR podem ser obtidas emwww.crea-pr.org.br.
Há exemplos de problemas por todos os lados. O empresário Gustavo Machado mora de aluguel no Spazio Cosmopolitan, no bairro Portão, em Curitiba, enquanto seu apartamento em outro empreendimento da mesma construtora, o Spazio Compostela, no Hauer, não fica pronto.
Já se passaram seis meses da data de entrega prevista em contrato e a empresa tentou implantar o condomínio, mas os moradores não aceitaram porque a prefeitura ainda não forneceu o Habite-se. Machado conta que apontou mais de cem irregularidades em seu apartamento, durante a vistoria de entrega. Ambos os imóveis custaram cerca de R$ 100 mil.
Enquanto não consegue se mudar, Machado enfrenta no apartamento alugado parte dos mesmos defeitos apontados na unidade que comprou: “A infiltração derrubou o forro de gesso do banheiro e danificou parte da pintura do quarto. Tem água que escorre por todos os lados. Tenho medo de que o mesmo aconteça no meu imóvel próprio, já que irregularidades como paredes e piso tortos já apareceram lá.”
O analista de suportes João Costa Kieltyka, morador do mesmo empreendimento, diz que a área comum do condomínio é motivo de dor de cabeça: a garagem foi reformada três vezes em um ano, devido a infiltrações, e já foi interditada. “A qualidade do material que usaram nos apartamentos é muito ruim e a empresa não demonstra interesse em resolver. Certa vez um representante da empresa me disse que o apartamento era um ‘quase Cohab’ e que eu não podia esperar acabamento de primeira linha”, relembra.
O mesmo “argumento” foi ouvido pelo jornalista Eduardo Correa. Na primeira reunião do condomínio Vivare, entregue no ano passado, o engenheiro da construtora tentava convencer os moradores a aceitarem o apartamento, apesar dos problemas de pintura e erros estruturais. “Quando um dos vizinhos falou que não ia aceitar, ele disse que o imóvel era de baixo custo, e que as pessoas não podiam reclamar, por causa do preço”, lembra. Na época da compra, há quatro anos, os imóveis, que ficam no bairro Tingui, foram vendidos na faixa dos R$ 140 mil.
Ministério Público investiga construtoras por irregularidades
O Ministério Público do Paraná (MP-PR), por meio Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor de Curitiba, realiza investigações para apurar irregularidades em imóveis oferecidos na capital, mas diz não poder informar quais são as empresas. Entre elas, há construtoras de todos os portes.
O consumidor que se sentir lesado pode registrar reclamações nos órgãos de defesa do consumidor. O Procon-PR, por exemplo, recebeu 317 queixas no ano passado por causa de vazamentos e entupimentos de encanamentos, além de outros problemas relacionados à qualidade de construção e outros tipos de defeitos. Em 2012 já são 52 reclamações nesses três itens.
Entretanto, quando os danos são coletivos, como os apresentados nesta reportagem, eles podem ser denunciados ao MP-PR. Nesses casos, a lei legitima o MP para atuar em duas frentes: a do ressarcimento e recuperação dos danos causados ao consumidor e a garantia da sua segurança. Após receber a denúncia, o órgão instaura inquéritos civis para apurar os fatos. Confirmada a denúncia, a instituição procura resolver, preferencialmente, os problemas de forma administrativa, firmando acordos extra-judiciais. Não havendo acordo, o MP-PR ingressa com ações civis públicas na Justiça.
Ajuste de conduta
No fim do ano passado o Ministério Público de São Paulo firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Sindicato da Habitação (Secovi) para definir regras mais claras entre construtora e consumidor. No Paraná, o MP-PR também tem TACs, mas individuais, com cada construtora. “O MP-PR tem TAC firmado com praticamente todas as construtoras que operam em Curitiba, no que diz respeito à oferta publicitária de imóveis”, informa o MP-PR.
Projeto de lei
Inspirado no TAC paulista, o deputado estadual Cesar Silvestri Filho (PPS) propôs um projeto de lei que pretende regulamentar o tempo de atraso na entrega de imóveis comprados na planta em todo o Paraná. Pela proposição, o fornecedor deve encaminhar ao consumidor, a cada seis meses, relatórios sobre o andamento da obra. Outro artigo prevê tolerância máxima de 120 dias para a entrega do imóvel comprado na planta, mas a construtora precisaria informar com clareza os motivos da postergação.
Mediação
Outra opção para ajudar os consumidores é a Câmara de Mediação e Arbitragem do Crea-PR, onde é possível resolver conflitos – na audiência, um mediador pode definir um resultado, que vale como uma sentença. “Falhas construtivas, como infiltrações e rachaduras, por exemplo, têm garantia de cinco anos. Se o consumidor não conseguir resolver a questão junto à construtora, pode buscar a câmara”, afirma Adriana Casagrande, gerente da regional do Crea-PR em Curitiba. Segundo o Crea-PR, a taxa de sucesso nas mediações é de 70%.

sábado, 28 de abril de 2012

Mais de 60.000.000 de adultos não tem o Ensino Médio


Segundo dados do IBGE e MEC, na realidade o número é ainda maior do que esses 60 milhões, pois não foram aqui contabilizados os analfabetos (15 milhões) e os com menos de 3 anos de estudo, considerados analfabetos funcionais (outros 15 milhões).

Podemos imaginar o que isso significa para essas pessoas e para o país como um todo. Apagão de mão de obra, menores e piores oportunidades de empregos, gargalo no Ensino Superior com sobra de vagas e consequentemente uma grande redução no potencial de crescimento do PIB nacional. Mas uma possível solução está surgindo, como veremos mais adiante.
Vemos que as estatísticas e as autoridades educacionais no País são exclusivamente focadas nas crianças e jovens. O índice principal a ser acompanhado é a taxa de escolarização, que significa verificar quantas pessoas estão no nível escolar correto em relação à sua idade.
Mas, e aqueles que por um motivo qualquer abandonaram os estudos e não completaram o Ensino Médio? São solenemente ignorados.
Mesmo a iniciativa privada, representada pelo belo programa “TODOS PELA EDUCAÇÃO" que estabeleceu 5 metas para acompanhar a situação da Educação no Brasil, passou ao largo desse problema ao estabelecer como uma das suas 5 boas metas para 2022:
“Meta 4 - Todo jovem com o Ensino Médio concluído até os 19 anos”.
Certamente essa meta pode ser integralmente cumprida sem que um único daqueles 60.000.000 de brasileiros conclua o Ensino Médio.
Esse é um grande desafio: Permitir que milhões de brasileiros deem um salto na sua escolaridade e se incorporem ao mercado de trabalho em um novo patamar.
Em 2009 o MEC tomou uma decisão importantíssima e que ainda não foi suficientemente divulgada. O ENEM vale para certificação do Ensino Médio, como se fosse um exame Supletivo. Isso está estabelecido na Portaria 109 de 27/03/2009, significando um direcionamento claro na linha da certificação de conhecimento.
"Art 2o. Constituem objetivos do ENEM... V- Promover a certificação de Jovens e Adultos no nível de conclusão do Ensino Médio nos termos do artigo 38, parágrafos 1o. e 2o. da Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)".
A regra vale para os maiores de 18 anos e não depende de nenhum outro pré-requisito. Os alunos precisam atingir 400 pontos nas provas objetivas e 500 na redação (Não é um índice qualquer. É a média do Ensino Médio).

25% dos professores da educação básica não têm diploma de ensino superior


Eles cursaram apenas até o ensino médio ou o antigo curso normal. Os dados são do Censo Escolar de 2011, divulgado este mês pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

Aproximidamente 25% dos professores que trabalham nas escolas de educação básica do país não têm diploma de ensino superior. Eles cursaram apenas até o ensino médio ou o antigo curso normal. Os dados são do Censo Escolar de 2011, divulgado este mês pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
Apesar de ainda existir um enorme contingente de professores que não passaram pela universidade – eram mais de 530 mil em 2011 – o quadro apresenta melhora. Em 2007, os profissionais de nível médio eram mais de 30% do total, segundo mostra o censo. Para o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão, os números são mais um indicativo de que o magistério não é uma carreira atraente.
“Isso mostra que as pessoas estão indo lecionar como última opção de carreira profissional. Poucos profissionais bem preparados se dedicam ao magistério por vocação, uma vez que a carreira não aponta para uma boa perspectiva de futuro. Os salários são baixo, e as condições de trabalho ruins”, explica.
A maior proporção de profissionais sem formação de nível superior está na educação infantil. Nas salas de aula da creche e pré-escola, eles são 43,1% do total. Nos primeiros anos do ensino fundamental (1º ao 5º ano), 31,8% não têm diploma universitário, percentual que cai para 15,8% nos anos finais (6° ao 9º ano). No ensino médio, os profissionais sem titulação são minoria: apenas 5,9%.
Para a presidenta da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Cleuza Repulho, é um “grande equívoco pedagógico” colocar os professores menos preparados para atender as crianças mais novas. “No mundo inteiro é exatamente o contrário, quem trabalha na primeira infância tem maior titulação. Quando o professor entra na rede vai para a educação infantil quase como que um 'castigo' porque ela não é considerada importante. Mas, na verdade, se a criança começa bem sua trajetória escolar, as coisas serão bem mais tranquilas lá na frente”, pondera.
Segundo Cleuza, o nível de formação dos professores varia muito nas redes de ensino do país. Enquanto em algumas cidades quase todos os profissionais passaram pela universidade, em outras regiões o percentual de professores que só têm nível médio é superior à média nacional. “Temos, às vezes, uma concentração maior de professores sem titulação em alguns locais do Brasil, como a Região Norte, por exemplo, onde as distâncias e as dificuldades de acesso impedem que o professor melhore sua formação”, aponta.
O resumo técnico do Censo Escolar também destaca que em 2010 havia mais de 380 mil profissionais do magistério matriculados em cursos superiores – metade deles estudava pedagogia. Isso seria um indicativo de que há um esforço da categoria para aprimorar sua formação. Mas o presidente da CNTE ainda considera “muito alto” o número de professores sem diploma universitário, especialmente porque nos últimos anos foram ampliados os estímulos para formação de professores nas instituições públicas e privadas de ensino superior.
Uma das alternativas para quem já atua em sala de aula e quer aprimorar a formação é a modalidade do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) para licenciaturas. O programa paga as mensalidades de um curso em faculdade particular e depois da formatura o estudante pode abater sua dívida se trabalhar em escolas da rede pública – cada mês em serviço abate 1% do valor.
“Os programas são oferecidos, mas as condições não são dadas aos professores para que eles participem. O professor não tem, por exemplo, a dispensa do trabalho nos dias em que ele precisa assistir às aulas. As prefeituras e governos estaduais que deveriam ser os primeiros interessados acabam não estimulando o aprimoramento”, diz Roberto Leão.

Um lugar chamado Tranqueira


Marcelo Andrade / Gazeta do Povo / Domingos Stocchero no local onde nasceu Tranqueira, uma invernada para animais trazidos por tropeirosDomingos Stocchero no local onde nasceu Tranqueira, uma invernada para animais trazidos por tropeiros
CAUSO METROPOLITANO


A população bem que tentou trocar o nome do local. Mas mudou de ideia ao lembrar sua importância no passado
29/04/2012 | 00:06José Carlos Fernandes, com colaboração de Ana Lúcia Superchinski
Há pouco mais de uma década, cansados de ouvir gracinhas na hora de preencher a ficha de crédito nas lojas da capital, os moradores de Tranqueira – antigo distrito de Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba – ameaçaram um levante e decidiram fazer um plebiscito. Mudariam o nome do lugar. Capivara, Morro Azul, Água Boa, Mato Dentro ou Campo Grande. Qualquer que fosse o escolhido seria melhor do que a criançada ouvindo gozação dos piás de Areias ou de Itaperuçu, seus vizinhos.
Marcelo Andrade / Gazeta do Povo
Marcelo Andrade / Gazeta do Povo / O coveiro Joel Lima e o túmulo do imigrante inglês: histórias imaginadasAmpliar imagem
O coveiro Joel Lima e o túmulo do imigrante inglês: histórias imaginadas
O avião, a maldição e o coveiro
No filme Narradores de Javé, a cineasta Eliane Caffé conta a história de um município do sertão ameaçado de desaparecer para dar lugar a uma barragem. A única chance de o lugar ser poupado é provar que tem algum patrimônio. É quando os moradores descobrem que restam apenas narrativas orais, mais engraçadas do que épicas. Há semelhanças entre Javé e Tranqueira. Sem estar em perigo, restou ao antigo distrito do Paraná as memórias de seus moradores. Confira:
Nos céus da Tranqueira
Há pouco mais de quatro anos, ao assumir a direção da Escola Municipal Bortolo Lovato, Vera Von Kriger se deu conta da rejeição que as 320 crianças do ensino básico sentiam pelo nome Tranqueira. “Para elas, corresponde a coisa velha e antiga.” Chamou os colegas de trabalho e nasceu um projeto: as professoras fizeram os alunos entrevistarem os veteranos do bairro e recolherem fotografias antigas. Do esforço, e com o mecenato da ‘Vani da papelaria’, surgiram dois livrinhos – Curiosidades e mitos do bairro Tranqueira e Tranquei Tranqueira no baú da história. São pródigos em lendas e causos. Numa das passagens mais divertidas, as crianças contam o dia de 1971 em que um temporal fez um avião pousar forçado nas terras de Tranqueira. O piloto saiu ileso. De certo não esqueceu o nome do lugar que salvou sua vida.
Pequenas maldições
Tal e qual Rio Branco do Sul e algumas outras cidades do Paraná, diz-se que um padre enfurecido rogou praga contra o distrito de Tranqueira. Motivo: viu da portinha da matriz de Santo Antônio que a piazada jogava bola em vez de ir à missa. Pois nada mais nasceria nos campos de Tranqueira. O administrador de empresas Sandro Miguel Mendes, 45 anos, não esquece o esforço da comunidade para fazer as pazes com o Divino: promoveu-se uma ruidosa Eucaristia no campinho de pelada. Deu certo. Sandro, a propósito, figura entre os entusiastas pelo bairro, estudou na Escola Isolada de Tranqueira, frequentou a Sociedade Beneficente Tranqueira e, como diz ele, comeu maçãs escondido no quintal do francês Jean Geneviève. Era um ritual.
Histórias do além
O Cemitério do Distrito de Tranqueira poderia figurar na obra de Dias Gomes. Há seis meses vive no local o cachorro Tigrão, velando seu dono ali sepultado. O cão não é a única atração. Há pouco mais de um ano, o coveiro Joel Aparecido Santos Lima, 33 anos, rompeu com a sisudez do endereço e se tornou popular no bairro. Ele adora ler as lápides e imaginar quem seriam aquelas Anselmas e Marias Franciscas que jazem em paz. Em alguns casos, não se intimida em contar o que pensou. Na versão de Joel, por exemplo, o inglês Jorge Kendrick, morto em 12 de dezembro de 1902, seria um nobre que viveu seus últimos dias em Tranqueira. A propósito, o cemitério chegou a ser vendido pela prefeitura, para quitar dívidas previdenciárias. Em 2005, foi novamente comprado pela administração municipal por R$ 811.123,04, dividido em 420 meses, mais a inflação. (JCF)
“Mas ganhou Tranqueira por 700% dos votos”, inflaciona o veterano Domingos Natal Stocchero, 85 anos, conhecido como seu Mingo, ao falar do escrutínio. Foi histórico. Na época, a eleição fez a velha-guarda sair do sossego de seus sítios e impedir o que julgavam um desaforo. Além dos Stocchero, gente dos Antoniacomi, Vanelli, Cavalli, Gabardo, Chevônica e Chimelli, entre outros, ergueu a voz em defesa do nome oficial, alegando que a mudança equivaleria a desdenhar das gloriosas origens tropeiras de Tranqueira.
Só faltou o escritor Dalton Trevisan. Tido como o maior escritor brasileiro vivo, Dalton tem suas origens em Tranqueira. Sua mãe, Catarina, era de lá e ele chegou a citar a localidade nos textos de início de carreira, hoje renegados.
Pois os veteranos não só não precisaram do Vampiro como convenceram os indecisos e mexeram com os brios da população – hoje estimada em 15 mil habitantes –, dando início à fase “eu amo Tranqueira” (leia nesta página). Por ironia, o nome que causou uma pequena batalha eleitoral é um dos últimos patrimônios da antiga colônia: sobrou quase nada do entreposto comercial e dormitório de tropeiros que vinham do Vale do Ribeira rumo a Curitiba, conduzindo rebanhos, nos idos do século 19.
Perdas
Tranqueira fica a 21 quilômetros de Curitiba e a 10 quilômetros de Almirante Tamandaré, da qual se tornou um bairro. Está em cima do Aquífero Karst. É cortada ao meio pela Rodovia dos Minérios, que lhe presenteia em tempo integral com o barulho dos caminhões e a poeira branca que sobe das carrocerias. Para os motoristas, talvez não passe de um lugarejo de beira de estrada, com algum comércio em roda e uma bela paisagem de pinheiros. Não se deve culpá-los.
A centenária igrejinha de Santo Antônio ruiu em 1994 e deu lugar a um templo como todos outros. A estação de trem “Tranqueira”, a exemplo de outras da RFFSA, ficou na saudade: virou abrigo de ambulantes e acabou incendiada em 2006. A antiga pousada onde paravam os tropeiros foi ao chão e o terreno abriga agora uma unidade de saúde. A Sociedade Beneficente Tranqueira agoniza.
O casarão colonial dos Stocchero, na beira da estrada, virou lenha e abriu espaço para um posto de gasolina. Do moinho dos bijus, nem farelo. Os primeiros fornos para queimar pedra calcária tiveram o mesmo destino, deixando o distrito cada vez mais pelado de memórias. Nem o Cemitério de Tranqueira escapou à sina. Havia ali túmulos da época em que o Paraná começara a existir, mas nenhum deles guarda resquícios da arquitetura original.
Não é dos males o pior. O marco-zero de Tranqueira – uma área de invernada em que os animais conduzidos pela tropa ficavam protegidos – se resume agora a um pálido olho d’água, cercado de mato. Identificá-lo é tarefa possível apenas para veteranos como seu Mingo, que cresceu ouvindo falar que foi naquele pedaço de terra que tudo começou.
A versão mais aceita é que quando os tropeiros chegavam para o pernoite, atravessavam o Rio Barigui com água até as canelas e guardavam atrás das cercas as levas de gado, mulas, porcos e até de perus. Para se certificar de que os peões tinham feito bem o serviço, um capataz berrava, causando eco nos vales de Almirante: “Fechou a tranqueira?” Pois Tranqueira ficou.
Caso algum tranqueirense decida “imaginar como era”, só lhes resta olhar para a casa de lambrequins do francês Jean Geneviève, um dos tantos estrangeiros que escolheram o distrito para viver e morrer. Ou para a Fábrica da Banha do polonês Stanislau Mikala, fechada pela Vigilância Sanitária na década de 1980, mas as letras em relevo na fachada estão tal e qual. Vale uma foto na frente, com legenda: “Estive em Tranqueira e lembrei-me de ti”. Não duvide de que alguém o faça.

Em páginas
Almirante Tamandaré é tema de duas pesquisas históricas
Até o final deste ano, Almirante Tamandaré vai ganhar duas publicações sobre a história do município. A primeira vem de uma pesquisa inacabada, desenvolvida pelo poeta e historiador diletante Harley Clóvis Stocchero, morto em 2005. Os Stocchero figuram entre os clãs tradicionais do antigo distrito de Tranqueira, o que garante na obra destaque para a localidade. Familiares se encarregaram da finalização do projeto, intitulado Raízes Históricas de Almirante Tamandaré.
O segundo livro – Município de Almirante Tamandaré-PR: uma história em constante construção, de autoria do historiador Jorge Antônio de Queiroz e Silva e da jornalista e antropóloga Zélia Maria Bonamigo – é uma obra de fôlego, com cerca de 700 páginas, resultado de quatro anos de garimpagem e cerca de 60 entrevistas em profundidade. Enquanto Harley Stocchero se baseia na documentação oficial disponível na cidade, a dupla Jorge e Zélia investe também nas narrativas orais – tendo inclusive ouvido os veteranos de Tranqueira.
Origens
As origens de Tamandaré remontam a meados do século 19, quando se chamava Freguesia de Pacatuba e, posteriormente, Vila Conceição do Cercado. O nome atual coincide com o início da República. O que mais atrai os historiadores é a posição da cidade no vaivém dos tropeiros, vindos da Colônia Açungui, no Vale do Ribeira. Ao contrário do que se propala, a relação com o tropeirismo gaúcho se deu de forma pouco intensa.
Uma das descobertas dos pesquisadores é que os trajetos pelos interiores das colônias eram mais variados do que se afirmava até então, derrubando a tese de que a região era isolada. Um dos caminhos levava a onde está hoje o bairro Ahú, em Curitiba. “Havia grande procura de porcos para engorda, o que gerava ligações entre um ponto e outro da região. Não eram roteiros oficiais”, diz Zélia.
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VIDA E CIDADANIA | 3:59

Um lugar chamado Tranqueira

Conheça a história de Tranqueira, bairro de Almirante Tamandaré, que já foi passagem de tropeiros do Paraná.