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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Para os miúdos gostarem de ler


Hugo Harada/Gazeta do Povo /
ESPAÇO

A Livraria Descobridores, especializada em literatura infantil de Portugal e de suas colônias, traz a Curitiba uma infância com sotaque lusitano.

Os irmãos Marco e Sofia Vieira Busetti têm apenas 7 e 4 anos, respectivamente. Mas, sem querer, acabaram levando seus pais, Marco Antônio e Rossana, a fazer uma aposta importante: abrir, em Curitiba, uma loja especializada em literatura infantil, com livros publicados por editoras de Portugal e de suas ex-colônias. Um negócio original, intrigante, porém arriscado.
Toda essa história começou quando Marco Antônio, professor da PUCPR e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), de 47 anos, embarcou com a mulher e os filhos pequenos para Lisboa, onde iria cursar, durante um ano, um programa de pós-doutorado em Engenharia de Produção no Instituto Superior Técnico. Ao chegar à capital portuguesa, se instalaram em um apartamento no bairro Parque das Nações, à beira do Rio Tejo.
Hugo Harada/Gazeta do Povo
Hugo Harada/Gazeta do Povo / Os irmãos Marco e Sofia Vieira Busetti: curiosidade literáriaAmpliar imagem
Os irmãos Marco e Sofia Vieira Busetti: curiosidade literária
Prateleira
Apostando na valorização de livros publicados originalmente em língua portuguesa e na tentativa de estreitar os laços entre os países que fazem parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a Descobridores dispõe de títulos como:
• Debaixo do Arco-íris Não Passa Ninguém, do angolano Zetho Cunha Gonçalves, ilustrado pelo moçambicano Roberto Chichorro.
• O Beijo da Palavrinha, de Mia Couto e ilustrado por Malangatana, ambos de Moçambique.
• O Filho do Vento, de José Eduardo Agualusa, com ilustrações de António Ole, ambos de Angola.
Premiados
No acervo da Descobridores, criteriosamente selecionado, constam títulos premiados nos principais eventos nacionais e internacionais de literatura, como: a Bologna Children’s Book Fair (Itália), a Feira do Livro de Frankfurt (Alemanha), o Prêmio Compostela para Álbuns Ilustrados (Espanha), o CJ Book Festival (Coreia do Sul), além de títulos premiados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY).
Braille
Para crianças deficientes visuais, há títulos em braille, como O Livro Negro das Cores, de Menena Cottin, premiado na Feira de Bologna, na categoria New Horizons, em 2007, publicado pela editora Bruaá, de Portugal. Em breve, outros títulos em braille serão incluídos no acervo.
Bilíngues
Além de várias edições nacionais bilíngues, a Descobridores dispõe de títulos em mais de um idioma lançados por editoras portuguesas. Confira alguns deles:
• Azul Blue Bleu, de Gémio Luis e Eugénio Roda (português, inglês e francês).
• O Metrô Vem Correndo, de Dong-Jun Shin (português e coreano).
Na esquina da nova residência da família, havia uma livraria chamada Cabeçudas, especializada em obras infantis, que logo se tornou o local favorito de Marco e Sofia em toda a cidade, uma espécie de refúgio lúdico onde as crianças liam, se divertiam e interagiam com outros miúdos lisboetas.
Navegadores
A mãe, Rossana, 44, que leciona há anos no curso preparatório de professores do Colégio Sagrado Coração de Jesus, antigo magistério, ficou muito interessada pelo recém-despertado interesse de Marco e Sofia, fascinados com os livros e suas belas encadernações, e instigados pela atmosfera ao mesmo tempo aconchegante e alegre da Cabeçudas. Assim nasceu o projeto da Descobridores.
Inaugurada no último dia 18 de abril no coração do bairro Batel, à Rua Coronel Dulcídio, a livraria – a poucas quadras de outro espeaço literário voltado ao público infantil, a Bisbilhoteca, na Carlos de Carvalho – recebeu esse nome por dois motivos. Um, em homenagem à temporada lusa dos Busetti em 2011, conta Marco Antônio, diz respeito ao glorioso passado dos portugueses, navegadores visionários e desbravadores de novas fronteiras quando o mundo entrava em expansão no Renascimento. O outro, por conta do espírito fuçador e curioso das crianças, sempre em busca de algo a decifrar, a experimentar.
Nas estantes da Desco­bri­dores, além de obras de literatura infantil publicadas por editoras brasileiras, de autores nacionais e estrangeiros, pais e filhos vão encontrar um número substancial de títulos lançados em Portugal e trazidos, junto com quase todo o mobiliário da loja, da terra de Luís de Camões (leia mais no quadro ao lado). A caminho também estão livros de Moçambique e Angola, já encomendados de editoras desses países. “Nossa exigência fundamental é que sejam obras de literatura, e não meros produtos comerciais”, diz Rossana.
Em um espaço pensado para os pequenos, onde toda a decoração convida à brincadeira, mesmo quando o assunto são as letras, o visitante mais curioso vai encontrar títulos bastante inusitados, capazes de ir parar na biblioteca de qualquer marmanjo, mesmo os que não tenham crianças em casa. Entre eles, uma bela edição de O Silêncio da Água, de José Saramago, vencedor do Nobel de Literatura, com ilustrações de Manuel Estrada, e publicada pela casa portuguesa Caminho.
Talvez maior surpresa, no entanto, cause uma coloridíssima Antológia Poética, assinada pelo poeta português Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage (1765 –1805), mais conhecido pelo teor picante e erótico de seus textos. O livro, ilustrado por André da Loba, é da editora K de Livro, responsável por outra antologia, com desenhos de Pedro Proença, de outro grande poeta lusitano, Fernando Pessoa, também disponível na loja, onde, segundo os donos, tudo está à venda. Dos brinquedos aos livros, passando por um irresistível móbile com várias imagens do próprio poeta do desassossego.
Serviço:
Livraria Descobridores 
R. Coronel Dulcídio, 540 – Batel, (41) 3046-0444. De terça-feira a sábado, das 10 às 19 horas, e aos domingos, das 14 às 18 horas.

Tradição pernambucana em pinturas


Dicas do que fazer entre a sexta-feira e o domingo.

Os conhecidos papangus, grupos de festeiros mascarados e vestidos com longas túnicas que saem junto com uma pequena banda de frevo e passam de casa em casa no domingo de carnaval, são uma ideia mais do que incorporada ao carnaval pernambucano. Eles foram retratados pelo artista Sérgio Lemos na exposição Papangus, que fica em cartaz somente até amanhã na Subsolo Galeria de Arte Contemporânea (Av. Iguaçu, 2.481 – Água Verde). Estão na mostra nove grandes telas, com quase dois metros de altura. A galeria funciona hoje, das 14 às 21 horas, e amanhã, das 11 às 18 horas. A entrada é franca.

Dança repleta de sentido
Além dos espetáculos em cartaz na Bienal Internacional de Dança de Curitiba, que termina domingo, um trabalho curitibano questiona a maneira como o público recebe obras contemporâneas dessa arte. Swingnificado, de Gládis Tridapalli, em cartaz sexta e sábado, às 20 horas, e domingo, às 19 horas, no Espaço Cênico (R. Paulo Graeser Sobrinho, 305 – São Francisco), brinca com o sentido dos movimentos no palco. Para muitos, eles parecem aleatórios, e não é raro surgir a pergunta após o show: o que isso significa? Quem sabe é a hora de descobrir – ou aumentar a dúvida. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada).
Derico no Shopping Total
O músico Derico, saxofonista do Sexteto do Programa do Jô, faz duas apresentações gratuitas amanhã no Shopping Total (Rua Itacolomi, 100 – Portão). Os shows acontecem às 16 e às 18 horas na praça de alimentação do shopping. Derico começou a estudar flauta aos 5 anos de idade e, desde os 11, atua profissionalmente – ele também é músico exclusivo da marca de instrumentos musicais Yamaha. Além das apresentações, o Total terá atividades de recreação para crianças durante todo o dia.

Solos premiados em Stuttgart
Hoje, a programação da Bienal Internacional de Dança conta com solos de bailarinos e coreógrafos premiados no Festival de Stuttgart (Alemanha), além de performance da companhia goiana Quasar. Os espetáculos acontecem, respectivamente, no Guairinha, às 19h30, e Guairão, às 21 horas, auditórios do Teatro Guaíra (R. XV de Novembro, 971). No Time to Fly Off, da italiana Valentina Moar e Doroga, com coreografia e dança de Ioulia Plotnikova (foto), da Rússia, são alguns dos solos. Os ingressos custam R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada). Outras informações pelo site:www.bienaldanca.org.br.

Índios urbanos tentam manter cultura


Henry Milléo / Gazeta do Povo / A índia Santina Inácio Elias ocupa o tempo com a confecção de cestos em Kakané PorãA índia Santina Inácio Elias ocupa o tempo com a confecção de cestos em Kakané Porã
DIVERSIDADE

Curitiba abriga hoje 2,7 mil índios espalhados pela maioria dos bairros. A quarta maior concentração da capital fica na aldeia Kakané Porã.

Longe das aldeias e do habitat de seus ancestrais, os índios que hoje vivem em Curitiba se espalham por 72 dos 75 bairros existentes. Com uma população estimada em 2.693 pessoas pelo IBGE, os indígenas representam pouco mais de 0,15% dos 1,7 milhão de moradores da capital. Dispersos no meio urbano, os índios estão mais concentrados na Cidade Industrial (318), Sítio Cercado (238), Cajuru (152), Campo do Santana (133) e Alto Boqueirão (114). Para o líder kaingangue Alcino Kakupri, esses dados são exemplo de que o índio é “um estrangeiro em sua própria terra”.
Disseminação
Projeto de turismo etnográfico prevê parque indígena
A comunidade indígena da Kakané Porã quer ir além dos muros da aldeia urbana no Campo do Santana, em Curitiba. Entre os projetos para garantir a sobrevivência da comunidade, está a construção do Parque Etnoturístico Kakané Porã. Há três anos, o grupo formado pelas nações kaingangue, guarani e xetá vem burilando o projeto, a ser instalado do outro lado da Rua Delegado Bruno de Almeida, onde fica o conjunto habitacional.
Para Alcino Kakupri, uma das lideranças kaingangue, o local será o primeiro parque urbano administrado e gerido totalmente por índios. Para Kakupri, esse é um sonho dos líderes e da comunidade para relembrar a cultura ancestral e oferecer um espaço de convívio entre índios e não-índios. “Será mais um ponto turístico de Curitiba. Em 366 anos, o município não criou nada especificamente para o índio. Só moradia não garante a sustentabilidade da cultura.” Atualmente, o documento está em análise na Coordenação de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.
No projeto está previsto a construção de ocas (moradias indígenas), espaços para a venda de artesanato, realização de oficinas e workshops, a construção de um museu com a representação das três nações, mostra de remédios naturais, criadouro de animais silvestres, mostra de caça e apresentações de dança. Além do aspecto cultural, a ideia é incentivar o desenvolvimento econômico, social e ambiental com base no etnoturismo. A área que deverá abrigar o parque tem 23 hectares e pertence à Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab).
Educação
Na área de 44 mil metros quadrados também deverá ser instalada uma escola indígena. Conforme informação da Secretaria de Estado da Educação, a construção da Escola Estadual Indígena Kejer Minffi, inclusa no Plano de Ações Articuladas 2012, do Ministério da Educação, deverá iniciar neste ano e estar em funcionamento no ano letivo de 2013. Enquanto isso, um professor linguista deverá iniciar as aulas do idioma kaingangue no contraturno escolar, a partir desta semana. “É importante mantermos nossa cultura viva”, comenta Kakupri.
Além da escola, também está prevista a constituição de uma horta comunitária e a instalação de um sistema de produção de apicultura, com abelhas sem ferrão. O chefe da coordenação técnica local da Funai, João Luiz Serpa Silvério, avisa que está em estudo a construção de uma Casa de Passagem Indígena e um museu, em um terreno doado, na Vila Izabel. Projetos de acomodação temporária para índios também são desenvolvidos em Francisco Beltrão e Cascavel. Em Maringá e Ponta Grossa, o espaço já está em funcionamento. (AP)
Juventude
O Censo 2010 aponta que o Paraná tem mais de 25 mil índios. Destes, 20.929 moram no interior e 4.986, na Região Metropolitana de Curitiba. A prevalência é de população jovem (até 24 anos), com 48%. Na Kakané Porã, na capital, os índices demonstram que 61% dos moradores da aldeia também se enquadram nessa faixa etária.
No entanto, para amenizar o impacto sociocultural, desde 2008, mais de 140 índios vivem em Kakané Porã, a primeira aldeia urbana da Região Sul e a terceira do país, formada por casas de um conjunto habitacional da Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab) situado no bairro Campo do Santana. Muitos moradores vieram de aldeias do interior do Paraná e do Rio Grande do Sul. E a adaptação não foi fácil, confessa o cacique Carlos “Kajer” dos Santos, 47 anos, ao lembrar-se da sua trajetória antes de sair do Parque do Cambuí, localizado na Região Metropolitana.
Kajer recorda do dia em que o grupo chegou à aldeia para ocupar as casas oferecidas pela Cohab. “Fomos recebidos com protestos, mas só queríamos ter uma moradia digna”, lamenta. Para o filho Carlos Ubiratan dos Santos, 25 anos, o preconceito sentido anteriormente não existe mais. “Tenho muitas saudades. Gostaria que meu filho estivesse lá [em Mangueirinha, onde o pai nasceu], mas não tínhamos mais oportunidade por lá.”
Perfil da aldeia
Assim como o grupo – composto por membros das tribos kaingangue, guarani e xetá –, o engenheiro agrônomo e indigenista Edívio Batistelli também vê a dispersão como um fator social e econômico. Os índios saem do aldeamento rural, principalmente, em busca de comércio para os produtos artesanais e educação. A criação da aldeia urbana Kakané Porã – ou “fruto bom da terra” – surgiu exatamente para agregar os povos migrantes.
Para Batistelli, a constituição da aldeia urbana possibilitou aos índios oportunidades – artesanais ou não – e o retorno para o ambiente coletivo, onde é possível dividir com o grupo as dificuldades de viver em uma cidade. “Na medida que se aproximam, é bom para todos. A sobrevivência do índio depende do conhecimento.”
Atualmente, 35 famílias vivem em uma área de 44 mil metros quadrados da Kakané Porã. Além das casas coloridas, que abrigam – na maioria delas – peças de artesanato expostas nas paredes, o conjunto habitacional tem uma praça. No centro, uma oca de madeira serve para cultos e apresentações culturais. Para orgulho do vice-cacique Alcino Kakupri, o conjunto tem o objetivo de ensinar a tradição indígena para os mais jovens e manter os costumes entre os mais velhos.
A maioria vive do artesanato, como é o caso da sogra de Kakupri, Santina Inácio Elias, 57 anos, que veio de uma aldeia em Nonoai, no Rio Grande do Sul. Ela faz cestos que são vendidos no bairro e em feiras no centro de Curitiba. Diariamente, Santina ocupa o tempo com a raspagem da taquara, a tintura da fibra e o enlace do material. O marido, porém, é padeiro há 20 anos. Assim como ele, um vizinho rendeu-se à vida urbana e virou motorista de ônibus. E por aí vai. Para Kakupri, muitos dos jovens – que estudam em escola regular – sonham com a faculdade. E ele mesmo é produto da aldeia urbana, formado em Enfermagem, Teologia e Direito.
VIDA E CIDADANIA | 1:34

Kakané Porã, a aldeia urbana do Paraná

A aldeia abriga 35 famílias e está localizada no bairro Campo do Santana, em Curitiba. A Kakané Porã é a primeira aldeia urbana da Região Sul e a terceira do país. É formada por uma população jovem, com mais mulheres e que vivem na informalidade.

domingo, 29 de abril de 2012

Aniversário de interdição do Ambrósio Bini

A língua morta que está viva por aí


Ilustrações: Benett /
PALAVRAS

Pequeno dicionário do jornalista Alberto Villas reúne cerca de mil termos cunhados a partir dos anos 1950 que caíram em desuso.

Ninguém quer passar “curé” por não entender “xongas”. E, para isso, nem é preciso ser um “bidu” ou juntar um “catatau” de livros para estudar. O jornalista e escritor Alberto Villas listou mais de mil palavras e montou o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta, uma boa lista daqueles vocábulos que de pouco usados dão a impressão que se foram.
Passando dos 60 anos e com duas filhas ainda bem jovens, Villas era surpreendido com os comentários de como estava ficando velho quando falava determinadas coisas, já que as garotas não sabiam exatamente ao que o pai se referia. A partir daí, começou a guardar essas palavras em sua cabeça, além de lembrar-se de outras, que seus genitores falavam. Até mesmo as revistas antigas que colecionava foram fonte de pesquisa.
Ilustrações: Benett
Ilustrações: Benett / Ampliar imagem
Glossário
Entenda o significado de algumas palavras quase mortas citadas na reportagem:
Curé: vergonha, vexame.
Xongas: nada.
Bidu: quem sabe tudo.
Catatau: que é volumoso.
Delonga: sem se prolongar muito.
Grilado: preocupado.
Desopilar o fígado: relaxar, rir.
Fonte: Pequeno dicionário brasileiro da língua morta
“Nunca imaginei que isso ia dar um dicionário. A ideia de reunir isso em livro é para não correr o risco de as palavras sumirem para sempre”, conta. Foram dois anos de pesquisa e anotações até formar o livro. E muitas outras palavras, que já estão com um pé na cova, podem entrar em uma nova edição do trabalho.
Nascido no ano de 1950, o escritor priorizou as palavras mais usadas a partir dessa década e que hoje já não estão mais na boca do povo. “Não quis ir muito para trás. Coisas de mais de 100 anos, só a Dona Canô e o Oscar Niemeyer entenderiam”, brinca.
Villas conta que, ao escrever o livro, lembrou de palavras que povoaram sua vida. A preferida é cosmonauta, o equivalente a astronauta. “É uma lembrança de criança que eu acho bem bacana”, diz. Do outro lado, aquela que considera uma das palavras mais feias da língua portuguesa: o urinol, ou penico.
O escritor ainda confessa que gosta muito de palavras que mudam de sentido. “Quando eu era criança e falávamos ‘fulano tem gabarito’, queria dizer que tinha inteligência, classe. Hoje é resultado de vestibular”, relata. Ele ainda lembra de palavras que não são mais usadas, como nomes de tecidos. Como as pessoas não compram panos, poucos sabem o que é fustão (tecido de algodão fino e opaco com estampas extravagantes) ou tafetá (tecido de seda trançado). “É muita palavra que a gente falava e não fala mais”, conclui.
Cacofonia, a doença da frase
Lá pelos meados de 1980, um pontagrossense ocupou-se de reunir aquilo que chamou de quiproquós verbais. O engenheiro e escritor Eno Teodoro Wanke fez seu Dicionário de Cacófatos, com alguns exemplos daquilo que definiu como o vírus que se intromete na fala, um ruído na comunicação.
Wanke classificou o livro como útil, por ser uma “vacina contra a mensagem parasita”, e engraçado, porque não há como não se divertir com as mensagens disparatadas que o dicionário traz. “Os cacófatos são sempre contornáveis, mas é inegável constituírem eles uma praga, uma erva daninha, um joio se intrometendo, quando menos se espera, no trigo bom da comunicação através da palavra”, afirmou o autor na apresentação do livro.
De um lado catastróficos – afinal, um “por cada” sempre estraga um bom trabalho –, os cacófatos também podem ser usados propositalmente, para dar efeito humorístico e até lírico em determinadas passagens. Como exemplo, há uma popular trova cacofônica, em que os supostos versos de amor dão margem a uma interpretação menos romântica. “Meu coração por ti gela / meus olhos por ti são. / Já que não posso amar ela, / já nela não penso não.”
Nomes próprios
Mais do que o cuidado em frases, o autor também faz uma ressalva importante: os nomes próprios, que podem formar mensagens “estrambóticas”. Wanke defende que os pais devem tomar cuidado na escolha do nome dos filhos para que eles não sejam cerceados na vida pelo nome esquisito que têm, especialmente o primeiro.
“O sobrenome vem da família, não há como escapar dele. Mas, especialmente se o sobrenome tem características peculiares, podem os pais evitar, pelo menos, que formem mensagem com o primeiro nome”, defende. Entre os exemplos – reais, diga-se de passagem – citados no livro estão o cidadão paulista Armando Petisco, o carioca Olindo Barbas de Jesus, Nipon Karakaga Yama, a carioca Graciosa Rodela e Antônio Veado Prematuro.
“Por cada” inconveniente evitado, não custa atentar aos vocábulos. Afinal, a relação com o idioma não pode ser um “amor talhado” a morrer.
Morto há anos, o “tablet” foi ressuscitado
Mesmo que pouco usadas, palavras não podem ter sua morte decretada. Para o professor de Letras da Universidade Federal do Paraná Caetano Waldrigues Galindo, uma das leis básicas da linguística histórica é a de que não se pode fazer previsões e como a língua é um fato social, ela se rege por regras internas e externas. “Não podemos saber quando um tempero, uma cor ou uma palavra vão voltar a ter curso. Nem mesmo palavras que significam coisas, que se referem a objetos que caíram em desuso hão de necessariamente ficar quietinhas na tumba”, afirma.
Para explicar, cita o exemplo do aparato tecnológico do momento, o tablet. Ele explica que a língua inglesa viu a reintrodução desse vocábulo. “A palavra, que se referia às tabuinhas de barro com que se escrevia nos tempos antigos, agora está se referindo aos aparelhinhos digitais com que escrevemos hoje”, diz.
Galindo lembra que a gíria e a criatividade dos falantes é um mecanismo muito poderoso para regular o uso de algumas palavras. Além disso, a polissemia, os diversos significados de um mesmo vocábulo, pode fazer com que essa palavra tenha mais chance de sobreviver, porque um de seus significados continuará em uso.
Ou seja, sem mais “delonga”, não precisa ficar “grilado”: essa nostalgia é para “desopilar o fígado”.
Teste o seu conhecimento pelo Quiz abaixo: