Quase metade das famílias que perderam seus entes queridos neste ano não autorizou a retirada dos órgãos para transplantes
Tomar
uma decisão importante em um momento de luto não é tarefa fácil. No
Paraná, das 83 famílias que tinham pacientes com morte encefálica
declarada no primeiro trimestre deste ano, 40 disseram não às equipes de
captação de órgãos e tecidos. A taxa, de 48%, é menor que a nacional,
de 64%. Os índices fazem parte de um levantamento realizado pela
Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO).
Nos
24 estados brasileiros, mais o Distrito Federal, que fazem transplantes
(Amapá e Tocantins não dispõem do serviço), das 827 famílias abordadas
no primeiro trimestre, 528 não autorizaram a retirada de órgãos dos
parentes. A taxa cresceu nos últimos três anos, passando de 21% em 2009
para 34% em 2011. Essa tendência se manteve no Paraná: de 28% de
negativas em 2009 para 46% em 2011.
As diferenças são grandes entre os estados. De janeiro a março
deste ano, no Maranhão, houve 100% de recusas, enquanto em Rondônia não
houve negativas. A diretora da Central de Transplantes do Paraná, Arlene
Terezinha Badoch, diz acreditar que a recusa tem inúmeras razões. “Em
primeiro lugar, a família não doa porque desconhece a vontade do parente
em vida, mas há ainda o temor pela demora em se poder fazer o funeral, o
fato de acreditar que o corpo ficará deformado, o medo quanto à
credibilidade do hospital e as crenças religiosas”, comenta.
A consolidação do sistema de captação e de transplantes também
interfere na decisão. Para o presidente da ABTO, José Medina Pestana, em
estados como Amazonas, Sergipe e Bahia, que ainda não operam com a
capacidade máxima de suas centrais de transplantes, as negativas são
mais frequentes. “Elas não conhecem direito o serviço e tendem a
recusar”, comenta.
Abordagem
A forma de abordar a família é um ponto importante. Conforme o membro
da diretoria da Associação Internacional de Bioética José Eduardo de
Siqueira, muitas vezes a abordagem é equivocada. “Se a família fosse bem
acolhida, e por uma equipe multidisciplinar, poderíamos melhorar esses
índices”, diz. Conforme Medina, a ABTO faz treinamentos constantes de
abordagens de equipes médicas.
A psicóloga Patrícia Bertoncini, que faz a captação de órgãos no
hospital Bom Jesus de Ponta Grossa, acrescenta que a família é
informada, passo a passo, do estado de saúde do paciente e pode até
acompanhar a realização de alguns exames. Quando é constatada a morte
encefálica, os parentes são chamados para tomar a decisão. “Eles ou
autorizam a doação ou esperam o coração parar. Mas, essa notícia é dada
durante todo o processo de reação do paciente à medicação e à sedação,
não é de repente. Nós também fazemos o acompanhamento psicológico dos
familiares”, explica.
Em algumas ocasiões, é difícil entender que o coração do ente querido
bate, enquanto a morte encefálica já foi constatada. Por isso, conforme
o professor de Bioética da Universidade Positivo Cícero Urban, muitas
famílias não aceitam a retirada dos órgãos. Há ainda, conforme a
psicóloga Patrícia, a questão religiosa. “O familiar acredita que vai
haver um milagre e o parente vai voltar a viver”, diz.
Experiência
“Fizemos a coisa certa”, diz irmã de doador
No mesmo instante em que souberam da morte cerebral do jornalista
Vítor Hugo Grossl Gonçalves, que residia em Ponta Grossa, os seus
familiares, que são de Santa Catarina, avisaram aos médicos que queriam
doar todos os órgãos possíveis. Ele tinha 24 anos quando sofreu um
acidente de carro em direção a uma formatura em Santa Catarina. Ficou 48
horas em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em Joinville. “Fizemos a
coisa certa, isso não conforta a gente na hora da dor, mas ajuda
bastante”, comenta a irmã de Vítor, Valéria Grossl Gonçalves.
Em vida, Vítor não havia comentado com a família que queria ser
doador de órgãos, mas os parentes entenderam que esta seria a melhor
alternativa. Quase todos os órgãos foram doados, menos o coração e a
pele, porque não houve tempo hábil, e o pulmão, afetado no acidente.
“Não tenho ideia de quantas pessoas receberam os órgãos, mas soubemos
que apenas os ossos que foram doados iriam servir para atender 500
pessoas porque eles são triturados no banco de ossos”, acrescenta
Valéria.
Com a retirada dos órgãos, o corpo de Vítor teve de ficar dois dias a
mais no hospital. “As pessoas nos ligavam e queriam saber do velório,
mas tínhamos de explicar a situação”, comenta. Ela cita ainda que o
corpo de Vitor ficou sem deformações no caixão. “O hospital fez de um
jeito que não deu para perceber que os órgãos tinham sido retirados”,
explica.