Ovário tem células-tronco
Novidade pode revolucionar a área de reprodução humana, mas ainda é preciso cautela. É necessário mais pesquisa para transformar achado em melhoria da saúde
Publicado em 12/03/2012 | Rafaela Bortolin
Publicada no fim do mês passado na edição on-line da revista científica Nature Medicine, uma pesquisa liderada pelo biólogo americano e professor de Harvard Jonathan Tilly revelou ter identificado que 0,014% das células dos ovários das mulheres são células-tronco. Uma das conclusões do estudo é que, trabalhadas em laboratório, essas células poderiam gerar novos óvulos, aumentando as chances de gravidez em mulheres com alguns tipos de infertilidade ou naquelas que já passaram dos 40 anos.
Para os especialistas, se confirmada, a novidade tem tudo para revolucionar a medicina reprodutiva. Mas, segundo eles, a descoberta ainda precisa ser vista com muita calma. “Nenhum outro estudo conseguiu trazer esse avanço até hoje, mas é preciso cautela, já que só o tempo e novas pesquisas serão capazes de confirmar se esse achado vai se transformar em melhoria da saúde”, comenta o professor doutor do curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e diretor do Feliccità Instituto de Fertilidade, Álvaro Pigatto Ceschin.
Ética
Apresentados os primeiros resultados, o prosseguimento da pesquisa do professor Tilly esbarra em uma questão ética: não é possível implantar óvulos em uma mulher e verificar se eles gerariam ou não embriões e, posteriormente, bebês sadios. “Esse cultivo do óvulo precisa da análise de um bom comitê de ética e deve ser amplamente respaldado por outros estudos. Por enquanto, a pesquisa embrionária com seres humanos é restrita e é preciso que sejam trabalhadas alternativas em animais até que se demonstre que eles tiveram filhotes saudáveis e o processo é viável em humanos”, explica o professor doutor do curso de Medicina da PUCPR Álvaro Pigatto Ceschin.Aprovação
Falta de respaldo gera desconfiança
O diretor do serviço de reprodução humana da Maternidade Curitiba e professor de Ginecologia da Faculdade Evangélica do Paraná, Ricardo Beck, orienta cautela pela falta de respaldo científico da descoberta. Sobre o assunto, a Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (Eshre, na sigla em inglês) argumentou que esse era o único trabalho nessa linha e que outros estudos precisam ser realizados para validar seus resultados, enquanto a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM, na sigla em inglês) somente reproduziu uma matéria de jornal sobre a pesquisa, ressaltando que não endossava o conteúdo. “Ainda há uma desconfiança com esse material. O texto, por exemplo, foi recebido pela revista em agosto de 2011, mas só foi publicado no mês passado, na versão on-line. A descoberta tem tudo para ser sensacional, mas todos ainda querem confirmações dos dados.”
Uso
Produção de gametas já é tendência
A pesquisa americana pode até ser considerada uma novidade na área de reprodução humana, mas outros estudos já relacionaram os usos de células-tronco para produção de óvulos e espermatozoides, lembra o diretor do Feliccità Instituto de Fertilidade, Álvaro Pigatto Ceschin. “Nos últimos anos, se tornou uma tendência forte de pesquisa essa vertente de tentar conseguir que mulheres sem óvulos ou homens sem espermatozoide consigam gerar gametas. Já existem estudos trabalhando com essa possibilidade em ratos, por exemplo.”
A utilização dessas células-tronco para a reprodução, no entanto, ainda não passa de uma possibilidade para o futuro. Segundo ele, as células-tronco estão em vários tecidos do corpo, mas a dificuldade está em captar esse material sem prejudicá-lo a ponto de inviabilizar a utilização.
Ele explica que o primeiro passo deve ser confirmar como encontrar essas células específicas dentro dos ovários sem danificá-las. Depois, vem o desafio de desenvolver uma técnica para cultivá-las e deixá-las maduras e com qualidade suficiente para a fecundação. “Com isso, é preciso criar um jeito de resolver o grande mistério: será que, com essas células, será possível criar óvulos preparados para gerar embriões saudáveis, sem alterações cromossômicas, e que eles rendam bebês igualmente saudáveis?”, questiona.
Por isso, a recomendação para as mulheres que pensam em aproveitar essa novidade para engravidar mais tarde é não se apegar somente a essa pesquisa. “Os ‘modismos’ são perigosos, porque nem sempre as novidades se provam verdadeiras. Em vez de apostar em uma investigação dessas, o melhor para as mulheres perto dos 40 anos, que pensam em ter filhos, é se prevenir e congelar seus óvulos”, recomenda o diretor do serviço de reprodução humana da Maternidade Curitiba e professor da Faculdade Evangélica do Paraná, Ricardo Beck.
Organismo
Um dos problemas em confiar nessa tecnologia é que, mesmo que as células-tronco possam ser usadas para produzir novos óvulos em mulheres de mais de 45 ou 50 anos, o corpo dessas pacientes já não tem estrutura para manter uma gravidez.
“Uma mulher de 50 anos, por exemplo, pode ter seu útero preparado para receber um embrião, mas tem risco aumentado para desenvolver varizes, aneurismas, trombose, pré-eclâmpsia, problemas cardíacos, pulmonares, cardiovasculares, diabete e hipertensão. Então de que adianta protelar a gestação se isso vai comprometer a saúde da mãe e ameaçar o bebê?”, questiona Beck.
Expectativa
Outra expectativa é que o uso dessas células-tronco possa retardar a menopausa e desacelerar o relógio biológico feminino. Ceschin compara essa possibilidade à técnica de congelamento de tecido ovariano, quando se retira parte do tecido ovariano, congela e transplanta após algum tempo. “Quando se faz isso em uma mulher na menopausa, ela volta a ter padrão hormonal normal. Ainda é uma técnica limitada, mas não deixa de ser uma possibilidade.”
Quanto às técnicas de reprodução assistida, por enquanto, a pesquisa não muda os métodos vigentes, já que atualmente são usados óvulos maduros nos processos de reprodução. “Como as células-tronco são estruturas muito imaturas, isso exige muita pesquisa até que se chegue a uma forma de utilizá-las.”
Descoberta deve derrubar dogma
Caso os resultados da pesquisa americana sejam confirmados, um dos principais dogmas da medicina reprodutiva deve cair por terra: até hoje, acreditava-se que todas as mulheres eram incapazes de produzir óvulos novos e já nasceriam com seu “estoque” completo.
Atualmente, o que se sabe é que a mulher nasce com cerca de 1 milhão de óvulos. Até a adolescência, ela perde dois terços disso e passa a contar com apenas 400 a 300 mil. E, desses, somente 300 devem ser utilizados até o fim da vida. “Em cada ciclo menstrual, cerca de 14 folículos são desenvolvidos, mas o próprio organismo escolhe o melhor e somente ele é ovulado”, diz o médico ginecologista Ricardo Beck.
Com isso, a mulher vai “gastando” um número grande de óvulos ao longo da vida e eles não são repostos. “Sabemos que cada óvulo começa sua meiose [divisão celular] enquanto a menina está dentro do útero da mãe e esse processo fica parado e só se completa momentos antes de ele ser liberado na ovulação”, explica o professor doutor do curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná Álvaro Pigatto Ceschin.
É justamente por isso que os médicos recomendam que a mulher engravide antes dos 35 anos de idade. “Com o passar dos anos, como os óvulos não se renovam, a qualidade do material vai diminuindo. É diferente do que acontece com os homens. Uma mulher de 40 anos, por exemplo, têm óvulos de 40 anos, enquanto um homem da mesma idade tem espermatozoides de cerca de 65 a 80 dias, já que os gametas masculinos estão sendo constantemente produzidos.”
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