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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Baixa instrução não impede ajuda de pais para filhos



Terça-feira, 23/10/2012
Aniele Nascimento/ Gazeta do Povo
Aniele Nascimento/ Gazeta do Povo / Os poucos anos de estudo não impedem Leila Sentone de acompanhar  formação escolar da filha IsabelaOs poucos anos de estudo não impedem Leila Sentone de acompanhar formação escolar da filha Isabela
FAMÍLIA

Baixa instrução não impede ajuda de pais para filhos

O apoio e o interesse da família estimulam as crianças a estudar.
No Brasil, 50,8% dos chefes de família são analfabetos ou têm apenas o ensino fundamental, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na semana passada. Porém, a baixa escolaridade não impede que os pais ajudem o filho nas tarefas e acompanhem de perto a sua vida escolar. Nesses casos, aumenta ainda mais a responsabilidade da escola de dar suporte ao aluno para que ele fique em pé de igualdade com o restante da turma.
Se a família não entende nada do que o filho está aprendendo, só o fato de mostrar interesse e de conferir se ele está fazendo o que foi pedido pelo professor já serve como estímulo para que o aluno aumente seu comprometimento escolar. Isso serve para todo o ensino fundamental, mas a criança dará mais importância ao que os pais pensam nos primeiros anos de escola. Se ela perceber que a família valoriza a educação, a tendência é ter um bom desempenho.
Simples, mas necessário
Confira algumas dicas que auxiliam os pais a incentivarem o filho ao estudo:
- Mostre interesse pelo que ele aprendeu na escola. Pergunte como foi o dia, de quais atividades ele mais gostou e peça detalhes. Relembrar o que foi aprendido ajuda a memorizar.
- Na hora de sentar com o filho para estudar, tente ler um pouco do conteúdo para ele. Isso tornará o assunto mais atrativo.
- Separe um espaço fixo em casa para estudar, assim como um horário. A rotina facilita o aprendizado.
- Discuta com a criança ou o jovem o que está passando no jornal, no cinema ou até a letra de uma música. Estimule-os a exporem suas ideias.
- Incentive-os a perguntar em sala de aula, a questionar o professor quando houver dúvidas.
Sem interferir
Educadores defendem que a função dos pais não é corrigir tarefas, já que podem ensinar algo errado em um desses momentos. “Eles têm um papel mais afetivo do que cognitivo. Estão ali para estimular, despertar interesse”, diz o professor de Educação da Universidade Tuiuti, Joe Garcia. A correção é papel do professor.
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Como os pais podem estar mais presentes no aprendizado dos filhos?
Um aluno cuja família tem maior grau de instrução tende a ter melhores notas, pois a formação é, segundo a gerente de Planejamento Estratégico do movimento Todos pela Educação, Andrea Bergamaschi, uma combinação entre o que a escola ensina com o que os pais indicam e incentivam os filhos a ler, escutar, assistir e discutir. “Para aqueles que não têm esse suporte, a escola vai compensar estimulando mais a leitura, além de provocar discussões sobre assuntos diversos, desde o desenho a que o aluno assiste até o que os jornais estão mostrando.”
Superando dificuldades
Na Escola Estadual Manoel Ribas – que atende principalmente moradores da Vila das Torres, em Curitiba –, a pedagoga Jaqueline Ferraza consegue perceber em todos os anos escolares quando a família acompanha de perto a vida escolar do filho. Mesmo com situação socioeconômica frágil e baixa escolaridade familiar, é possível encontrar muitos pais e mães que fiscalizam as tarefas e até conseguem aprender com os filhos. “O que esses filhos aprendem na escola acaba sendo uma fonte de conhecimento para os pais”, comenta.
A inspetora da escola, Leila Sentone, é um caso de mãe que supera dificuldades da baixa instrução para ajudar a filha Isabela, 16 anos, e a neta Bianca, 11 anos. Se elas não conseguem entender algum assunto, Leila pede auxílio ao marido. “Quando minha filha estava no ensino fundamental era muito mais fácil ajudar, entender ou pelo menos ter alguma noção do conteúdo. No ensino médio é mais difícil”, conta.
Ler adianta formação em um ano e meio
Além de conferir de perto os deveres de casa e valorizar o estudo, a melhor maneira de os pais promoverem uma melhora no desempenho escolar do filho é ler para ele na fase de alfabetização, entre os 5 e 6 anos. No Brasil, apenas 37% das famílias fazem isso, segundo dados da Fundação Itaú Social. E para essa tarefa não são necessárias alta escolaridade e bagagem cultural, apenas alfabetização.
Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro, mostram que a principal influência na leitura de uma pessoa vem das mães e que a maior parte delas concluiu apenas os primeiros anos do ensino fundamental. “Nesses casos, a formação é irrelevante. Só o ato de contar uma história cria um impacto profundo na vida da criança. Depois disso, ajuda se o adulto discutir o que foi lido, pedir que a criança crie um novo final, que imagine outras possibilidades para aquele enredo”, comenta o professor do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Tuiuti Joe Garcia.
Quando os pais se comprometem com essa atividade de leitura, a criança avança em média um ano e meio na escolarização. Ou seja, é como se ela estivesse cognitivamente uma série e meia na frente da que está.
Perfil
Professora da família inteira
A dona de casa Laurinda Fátima Ferreira, 57 anos, estudou apenas até o último ano do ensino fundamental, mas isso não a impediu de acompanhar as tarefas escolares da filha – que hoje tem 30 anos – e dos mais de 30 sobrinhos que tem na família. Muitos deles iam espontaneamente até ela e a incumbiam da missão de ser a grande orientadora das atividades em casa.
Mesmo sem entender grande parte do que eles aprendiam na escola, principalmente quando o conteúdo ia além daquele contemplado nas séries que cursou, ela fazia questão de conferir a lição de casa, ir às reuniões e ajudar nas pesquisas de trabalhos. Para cumprir bem esse papel, além de ler bastante – segundo ela, tudo que via pela frente –, tinha como costume guardar livros didáticos que eram consultados por ela em casos de dúvidas. “Quando não sabia mesmo, eu mandava um bilhete para a professora avisando”, conta.
Para Laurinda, os bichos papões eram Matemática, Química e Física. Mas, para compensar, sentia mais facilidade em auxiliar em Português, Redação e nas disciplinas de humanas. Depois de tanto ajudar, ela se deu conta de que acabou também por aprender coisas que há tempo ficaram esquecidas depois que abandonou os bancos escolares.

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